O meu encontro com Chiara

O meu encontro com Chiara

de Stefano Zamagni
da revista "Economia de Comunhão - uma nova cultura"  nº.28 - Dezembro 2008

n28_pag._05_stefano_zamagni.jpgA Economia de Comunhão foi a ocasião e o caminho que me levou a encontrar Chiara há já quase quinze anos. Esse encontro estabeleceu as bases para uma profunda amizade e fecunda. Já muito foi dito e escrito sobre Chiara, sobre o seu carisma, o seu pensamento e a sua obra. Se, mesmo em um estado de intensa comoção, decidi acrescentar algumas linhas à já extensa literatura sobre a figura humana verdadeiramente privilegiada, é para falar, muito brevemente, daqueles traços característicos da sua personalidade fora do comum e que mais me impressionaram.

A primeira é a sensibilidade como declaração de confiança na vida. Quem é sensível está atento, reverente para o outro, prontos para ver, interessado em descobrir. Chiara desejou elevar a sensibilidade, como um princípio de método do movimento por ela fundado. A especial atenção dos focolarinos no cuidado pelo belo como um caminho para a recuperação da verdade e da bondade, é um sinal eloquente. Chiara fez sua, traduzindo-a em obras, a célebre afirmação de Hans von Balthasar: "em um mundo sem beleza ... até mesmo o bem perdeu seu poder de atracção ... Em um mundo que já não se considera capaz de afirmar o belo, os argumentos a favor da verdade esgotaram a sua força".

Precisamente porque persuadida de que somente o que é belo atrai o amor, Chiara dedicou muitas energias para nos colocar em guarda de um dos mais insidiosos riscos da nossa civilização, ou seja, que o belo esteja reduzido a bem de consumo do qual se requer uma imediata usabilidade. A Filocália [N.T.: Filocalia significa "amor à beleza", essa beleza que se confunde com o bem] de Chiara não é o resultado de um vago sentido estético, mas expressão do reconhecimento de que a fealdade das cidades e locais de vida tende a gerar também feiuras morais. Assim compreendo o espaço e as atenções reservadas, dentro do movimento, para as diferentes formas de expressão artística, desde as musicais às teatrais, das pictóricas às literárias.

Vou falar agora de um segundo traço característico: a crescente atenção em relação ao pensamento e, mais genericamente, à cultura. Chiara mostrou-nos o que significa, na prática, promover a cultura - Esta é como uma árvore, que deve crescer. Thomas Eliot advertia que não se pode construir uma árvore; pode-se plantá-la e esperar que a seu tempo se desenvolva. Pode-se ajudar e acelerar o seu crescimento. O recém-nascido pólo universitário ‘Sophia’ de Loppiano é apenas a última das suas inimagináveis realizações. O facto é que Chiara tinha entendido, desde o início do seu caminho de fé, que o amor se baseia no conhecimento: o amor que nasce da necessidade é delicado, o amor que vem do conhecimento é superabundante. Em grandes sectores da consciência contemporânea Deus não é nem afirmado nem negado, mas considerado de uma época, significando que a demanda em torno dele não suscita interesse, nem cultural nem emocional. Deus até poderia existir, mas não interessa. É contra esta espécie de torpor espiritual que a palavra e acção de Chiara foram particularmente eficazes, especialmente ao nível do diálogo económico.

Finalmente, a luta paciente, mas incansável luta contra a pseudo-cultura da catástrofe e da choraminguice é o terceiro traço forte da mensagem e da herança de Chiara. Ela tinha compreendido muito bem que, embora mau, o homem não é capaz do mal absoluto. E, portanto, que não faz sentido ceder à desesperante conclusão kafkiana, segundo a qual "há um ponto de chegada, mas nenhum caminho". Para os focolarinos o caminho existe e é aquele que consiste em  levar à ‘ágora’ [N.T.: (Do gr. ágora) = Praça das antigas cidades gregas, na qual se fazia o mercado e onde se reuniam, muitas vezes, as assembleias do povo.], além de questões de justiça e liberdade, também a da fraternidade e trazer para a área da economia a categoria da reciprocidade como gratuitidade. Com efeito, se o que é próprio da política é cuidar do bem humano, bom, então o seu fundamento deve procurar-se na ideia de "estar com". Por outro lado, se o significado último da economia é o de criar condições para que a vida seja mais feliz, logo mais humana, então para poder captar a identidade profunda da acção económica é preciso colocar-se na perspectiva da pessoa que age e não naquela neutra da terceira pessoa - como o jusnaturalismo [N.T.: tradicional corrente do pensamento jurídico que sustenta a existência de um direito natural] - ou naquela do espectador imparcial - como são as várias versões do contratualismo. O movimento político para a unidade e a economia de comunhão são os frutos maduros do original impulso vital de Chiara, para quem nunca foi suficiente a caridade como ‘philia’, mas também não a desdenhou. A grande contribuição de Chiara para a cultura da pós-modernidade foi a de restituir a caridade como ágape à esfera pública, depois da modernidade a ter trancado dentro da esfera do privado.

Gostaria de terminar com o epigrama que Goethe põe nos lábios dos anjos enquanto arrancam a alma de Fausto moribundo das garras do demónio: "Aqueles que constantemente se esforçam por avançar, esses são os que podemos salvar". Chiara, sempre e constantemente, se esforçou por avançar e está agora entre os benditos. Sejam dados louvores a Ela e ao seu testemunho de vida, para que outros o reproduzam e e sigam as suas pegadas.

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