Investir e lucrar na solidariedade

Os polos da Economia de Comunhão reúnem empresas que destinam parte dos próprios lucros para a promoção humana e social. Milhares de pequenos acionistas sustentam e mantêm esses polos

Investir e lucrar na solidariedade

por Marcello Riella Benites

publicado em Cidade Nova, 01/2010

A Economia de Comunhão (EdC), nunca é demais lembrar, foi lançada em Vargem Grande Paulista, no dia 29 de maio de 1991, pela fundadora dos Focolares, Chiara Lubich. Baseia-se na ideia de que empresas comuns destinem – por livre opção de seus proprietários – parte dos lucros para que pessoas pobres, numa relação de fraternidade, reciprocidade e responsabilidade, superem a pobreza. Mais de 700 empresas e cerca de 7 mil famílias participam hoje da EdC (www.edc-online.org) em todos os continentes.

Quando lançou a proposta da EdC, Chiara sugeriu também que surgissem polos empresariais que reunissem parte das empresas que aderem a esse projeto. O objetivo desses polos é ser uma amostragem de como funciona concretamente a EdC. Nesse sentido, os polos, segundo sua idealizadora, deveriam ser como “faróis”, que podem ser vistos de longe e que iluminam a realidade econômica com uma nova luz, a luz da fraternidade. Esses polos funcionam como condomínios empresariais, que oferecem uma estrutura básica (galpões, construções de apoio, saneamento, instalações hidráulicas, telefonia etc.) para que empresas da EdC possam se reunir e apresentar juntas um novo estilo de gestão econômica.
Os polos da EdC são mantidos por Sociedades Anônimas que agregam milhares de pequenos acio-nistas de todo o país. Por meio da compra de ações, pessoas das mais diversas expressões sociais podem contribuir diretamente para a consolidação e para o desenvolvimento da Economia de Comunhão. Esse mecanismo de participação funciona em todos os polos da EdC.

Rentabilidade
Segundo o empresário do setor de metalurgia, Rodolfo Leibholz, que é membro do Conselho de Administração da Espri S/A (Empreendimentos Serviços e Projetos Industriais), administradora do Polo Spartaco, em Cotia (SP), existem sete razões para investir nos polos. “A primeira dessas razões é que a compra de ações do polo não é uma doação”, afirma ele. “Eu estou comprando ações de um empreendimento que tem rentabilidade baixa, mas muito segura, baseada na valorização dos imóveis e aluguéis desses polos, que por sinal estão se valorizando bastante, no caso do Polo Spartaco, como todo o mercado imobiliário na região”, completa o empresário.
No Polo Spartaco, que conta com os investimentos de 3.970 acionistas, numa área de mais de 50 mil metros quadrados funcionam seis empresas da EdC, além de outras instalações de apoio. Vale ressaltar que são os acionistas que sustentam o polo, e não as empresas, que deveriam se manter com o próprio capital.
A segunda razão, segundo Leibholz, é que “quando compro ações de um polo da EdC, estou inves-tindo num empreendimento que cuida muito do meio ambiente e da saúde das pessoas que trabalham ali”. E quando ele fala em saúde não se refere apenas à saúde física das pessoas, mas também à “saúde dos relacionamentos entre elas”, o que se configura como a terceira razão. Para o empresário, “o acionista de um polo da EdC sabe que está sustentando uma estrutura a serviço de verdadeiras empresas-comunidade, onde os seus diversos agentes procuram viver a fraternidade entre si”.
O quarto motivo é, segundo Leibholz, o fato de essa fraternidade vivida nas empresas expandir-se também a partir de ações de solidariedade dirigidas à comunidade da área que circunda os polos. No caso do Polo Ginetta, em Igarassu, na grande Recife (PE), e do Polo François Neveux, em Benevides (PA), por exemplo, realizam-se cursos profissionalizantes e uma formação integral nos valores da ética, da cidadania e da fraternidade para adolescentes do entorno.

Ética empresarial
A fraternidade vivida como base dos relacionamentos econômicos compreende também um comportamento ético em relação aos funcionários, aos clientes, aos concorrentes e a todo o mercado. Aqui está, segundo Leibholz, a quinta razão para investir nos polos da EdC, ou seja, “quem investe nesses polos, investe numa nova ética empresarial que se apresenta como ponto de referência para o mercado e para a sociedade”. Ainda segundo o conselheiro da Espri, os polos da EdC são modelos de um novo modo de gestão empresarial, também no aspecto técnico e administrativo.
Tais modelos, vale lembrar, devem estar acessíveis para serem conhecidos por todos os empresários que queiram fazer a experiência da EdC; por estudiosos que desejem investigá-la como possível fonte de uma nova teoria econômica; pelos mais diversos agentes sociais, políticos e econômicos que queiram conhecê-la e/ou divulgá-la/estimulá-la. E esse, então, seria o sexto motivo: contribuir para dar visibilidade a um revolucionário agir econômico.
Num de seus discursos sobre a EdC, Chiara afirmou que esse projeto se realiza na terra, mas tem as “raízes no Céu”. A sétima razão para investir nos polos está ligada, segundo Leibholz,  a essa dimensão ideal e espiritual da EdC. “Os polos são a concretização do “Ideal da Unidade” manifestado ao mundo por meio de Chiara. Então, ser acionista de um desses polos é viver, tornar visível, concreto, esse ideal espiritual”, conclui o empresário.

Um pouco de história
A Economia de Comunhão foi lançada em 1991 e a Espri S/A, que administra o Polo Spartaco – o primeiro desse gênero no mundo – foi fundado apenas três anos depois. Segundo a contabilista Maria do Socorro Pimentel, que foi uma das principais protagonistas da criação da Espri, esse empreendimento só foi possível porque agregava o desejo de centenas de pessoas – muitas das quais muito pobres – que queriam colaborar com a EdC e não sabiam como.
Maria do Socorro explica: “Todos começamos a querer fazer alguma coisa, só que não se sabia como. No início, houve aqueles que disseram, por exemplo: ‘Eu tenho uma empresa e quero saber como posso concretizar a Economia de Comunhão’. Mas havia a grande maioria dos que não eram empresários, nem sonhavam em abrir uma empresa, mas queriam colaborar... A esses, Chiara apresentou a proposta de contribuir com os recursos para a construção dos polos”, conta a contabilista que atualmente integra o Conselho de Administração da Espri.
“Então, com um caderninho, íamos anotando quem dava e o que dava. Algumas pessoas tiravam um anel do dedo, outros doavam terrenos... Uma criança renunciava a um picolé para fazer uma doação. Tivemos o famoso caso de uma senhora que doou uma galinha... Mas havia casos em que nós nem sabíamos de quem tínhamos recebido. E o capital para a construção do polo foi se formando”, continua Socorro.
A contabilista conta que essa espontaneidade toda foi, aos poucos, se organizando com a consultoria de pessoas igualmente entusiasmadas com a EdC, porém, conhecedoras das regras do mercado e do mundo contábil, com suas implicações jurídicas entre tantas outras. Foi esse o caminho que conduziu à ideia de se abrir uma S/A. Em 1993, a Espri tinha cerca de 1.000 acionistas e em 1994 o Polo Spartaco já começava a funcionar, embora sua inauguração oficial tenha ocorrido em 12 de maio de 1998, com a presença de Chiara. 

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