Sem inclusão, o mercado não funciona

ECONOMIA DE COMUNHÃO Principal pensador da Economia de Comunhão, o economista e professor italiano Luigino Bruni fala nesta entrevista sobre o significado do projeto para a economia mundial, avalia seus primeiros 20 anos de existência e aponta suas futuras perspectivas

"Sem inclusão, o mercado não funciona”

por Daniel Fassa

publicado em Cidade Nova, 05/2011

Cidade Nova: Neste mês, a Economia de Comunhão completa 20 anos de vida. Quais são os principais resultados sociais, econômicos e culturais do projeto?

O principal resultado é que ainda estamos vivos e seguimos adiante, porque 20 anos é muito e haveria todos os motivos do mundo para simplesmente dizer “esse é um projeto que não funcionou” e desistir, porque a economia é complexa, a realidade mudou muito em 20 anos. Tivemos crises, a globalização se acelerou… Portanto, o fato de que ainda sigamos adiante, que as empresas resistam, que haja entusiasmo e que exista uma corrente de pensamento em torno da EdC parece-me o principal resultado. O projeto está vivo e cresce na história de hoje.

 

Como resultado específico, o principal e maior impacto que tivemos foi no âmbito cultural. A EdC foi citada e inserida na encíclica Caritas in Veritate, do papa Bento XVI. Nos capítulos 3 e 4 da encíclica, quando se fala de gratuidade, de reciprocidade, de dom, é evidente que o paradigma de referência é a EdC. Hoje há muita gente no mundo da economia social – mas não só – que se nutre dessa nova visão, que tem origem na espiritualidade do Movimento dos Focolares, mas que vai muito além dele. A EdC é um patrimônio da Igreja, da humanidade. E, portanto, destina-se a horizontes universais que nos superam.

 

E no plano econômico, qual o impacto da EdC?

No plano do impacto das empresas na realidade social, do lucro, dos projetos de desenvolvimento, somos ainda muito pequenos, estamos crescendo, há ainda muito a fazer, podemos ser muito mais. Acredito que isso é consequência do fato de que a EdC se restringiu muito ao Movimento dos Focolares. Até poucos anos atrás, era muito difícil que uma pessoa que não fizesse parte do Movimento aderisse à EdC, porque quase não havia distinção entre as duas coisas. Agora que começa a haver uma maior distinção, que os projetos são mais autônomos, muitas outras pessoas estão se aproximando da EdC.
Portanto, eu estou muito satisfeito com o projeto no que diz respeito ao seu impacto no plano das ideias, mas precisamos avançar no plano dos resultados financeiros e numéricos. Estou muito satisfeito também com o patrimônio humano que o projeto acumulou, com tanta gente que acredita e há 20 anos dá a vida por meio da atividade econômica, pelos pobres. De fato, a beleza da EdC é que não é apenas uma iniciativa ocasional, mas sim algo que diz respeito à vida de todos os dias. Portanto, exige muita energia, força e paixão para seguir adiante.

Quais são os principais desafios para o futuro?

Eu vejo que a EdC ainda é uma semente. Hoje nós não vemos a árvore, só a semente. Se a semente não morre, não se transforma, fica sozinha e não serve para nada. Se, ao invés, se transforma, consegue salvar o DNA e se tornar uma árvore onde muitos pássaros podem pousar. É necessária uma certa morte, uma certa transformação para que as atuais 800 empresas passem a ser 8 mil, 800 mil no futuro, para que todos aqueles que acreditam em uma economia nova possam unir-se a nós. Era esse o anseio de Chiara, ou seja, uma terceira via para todos aqueles que amam uma Economia de Comunhão, um mundo sem pobreza, um mundo mais justo. Nos primeiros 20 anos, conservamos a semente, quisemos garantir que ela fosse boa, que o DNA fosse correto. Agora, os próximos 20 anos serão os da terra, para que possamos ver daqui a outros 20 anos – ou quem sabe até antes – alguns frutos dessa árvore.

O que é mais importante: aumentar o número de pessoas ajudadas ou mudar o modo de fazer economia?

Uma coisa é ligada à outra. Na verdade, se compararmos o número de pobres ajudados hoje como o de dez anos atrás, veremos que atualmente são muito menos. Hoje são mais de 3 mil pessoas e há dez anos eram 8 mil. A EdC nasceu com o objetivo de reduzir a pobreza, mas também com o anseio de construir uma economia nova, o que obviamente requer mais tempo. Creio que as duas coisas são importantes. Não basta reduzir o número de pobres se você não muda a economia, mas também não é suficiente mudar a economia se as empresas não se tornam instrumentos de redução de pobreza.

Quais são as características de um empreendedor EdC?

O empreendedor de comunhão é um inovador, um gerador de riquezas, alguém que encontra modos de produção nos quais quem é ajudado também ajuda, criando relacionamentos de reciprocidade; é alguém humilde, que sabe colocar-se em questão, ser irmão e não somente pai, criar comunidade e gerar as condições para que a empresa siga adiante mesmo na sua ausência; enfim, é um pobre – segundo a pobreza do Evangelho –, alguém que vive a pobreza como escolha, como ideal, porque arrisca tudo, coloca em jogo a própria empresa, experimenta que também ele depende dos outros, e não coloca a própria segurança no dinheiro e no poder, porque só um pobre pode ajudar um pobre.

Recordo-me de um empreendedor do sul da Itália que queria fazer algo de bom pelos encarcerados, porque ele mesmo fora preso durante a adolescência. Visitando a prisão para menores da cidade de Cagliari, constatou que os meninos pintavam um muro para terem ocupação. Aquilo não era um trabalho, era simplesmente um modo de mantê-los calmos e ocupados. Ele então pensa, inova, trabalha até conseguir criar uma lavanderia para empregar os meninos. Esta lavanderia é, hoje, a melhor da cidade. Qual é a ideia de fundo? Se você não faz com que um pobre se sinta útil à empresa, ele será sempre um assistido, não será jamais uma pessoa integrada, autônoma. Você ajuda realmente uma pessoa pobre quando a insere na empresa, quando faz com que ela se sinta útil. Você a ajuda e ela o ajuda, na reciprocidade.

A prioridade da EdC são os jovens empreendedores ou os empresários já consolidados que se sentem vocacionados a aderir ao projeto?

Eu dou prioridade àqueles que começam do zero, porque quando uma empresa já existe é mais difícil mudar sua cultura. Além disso, os jovens são mais generosos, entusiasmados, idealistas; têm mais desejo de colocar-se em questão. Portanto, eu esperaria hoje um maior protagonismo dos jovens em relação ao do passado. É por isso que o Instituto Universitário Sophia (centro universitário do Movimento dos Focolares) é importante, porque forma jovens que podem futuramente tornar-se empreendedores de comunhão, desde o início de sua atividade nesse âmbito. Mas aqueles que já existem também podem aderir, podem mudar suas empresas, entrar no jogo. As duas pernas são necessárias, seja quem começa do zero, seja quem já é empresário e adere ao projeto.

Como é a aceitação da EdC no âmbito acadêmico?

A reflexão sobre os valores gerais que permeiam a EdC como a reciprocidade, a gratuidade e a comunhão é mais aceita; já são categorias bem consolidadas na academia. Mas o projeto EdC, especificamente, é menos conhecido, porque aparenta ser uma coisa muito simples para a academia; porque o discurso sobre o projeto está sempre limitado à destinação do lucro. Temos agora o desafio de dar maior dignidade científica ao projeto, desenvolver mais o modelo empresarial, torná-lo mais rico, mais completo. A tripartição dos lucros é como uma célula-tronco, que é a chave, mas deve articular-se, desenvolver-se. E para isso é necessário criatividade e empenho.

Nos últimos anos, além da EdC, nasceram projetos econômicos alternativos, como  o Comércio Justo e Solidário e o Microcrédito, por exemplo. O senhor acha que esse fenômeno está indicando alguma tendência para a economia?

Eu acredito que essas experiências indicam que a economia se deu conta de que, sem resolver o problema da exclusão das pessoas no processo econômico, o mercado não funciona. Não podemos imaginar um mercado que deixa pelo caminho 40, 50% da população. A ideia é incluir no sistema econômico quem está fora dele e não somente assistir esses grupos com subsídios. A economia deve ocupar-se dos pobres e não deixar essa função só para o Estado, porque há sempre o risco do paternalismo, do assistencialismo. Mesmo porque se pode sobreviver com esmolas, mas para viver é necessário produção. Portanto, aquilo que fazem esses três projetos – a EdC no campo da produção, o Comércio Justo e Solidário no campo do consumo, e o Microcrédito no campo da poupança – é levar as pessoas a produzir e não simplesmente a receber ajuda.

E qual é a função do Estado?

O Estado tem um papel enorme de garantidor dos bens públicos para todos; de garantidor de igualdade e de justiça. Ele é fundamental, porém não basta. Para resolver o problema da pobreza são necessários vários níveis de intervenção. É aquilo que a Doutrina Social da Igreja chama de princípio da subsidiariedade. A busca de soluções deve envolver toda a sociedade e começar por ela, e aonde elas não conseguem chegar, entra o Estado. Não o contrário. Uma sociedade complexa como a nossa deve ter mais níveis de intervenção; é policêntrica.

Qual foi a importância do Congresso Panafricano da EdC, realizado em janeiro deste ano, no Quênia?

O Congresso Panafricano foi muito importante como uma preparação para as comemorações dos 20 anos, porque nos fez ver quanta necessidade de comunhão existe no mundo, especialmente nos países mais pobres. Impressionou-me muito ver estudantes que, não tendo eletricidade em casa, estudavam à noite sob a luz de lampiões, para poderem se sair bem nos exames.

E quais são suas expectativas para o congresso comemorativo que acontecerá neste mês, no Brasil?

O Congresso comemorativo no Brasil não é um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida. Estamos preocupados em fazer projetos para os próximos 20 anos. Eu acho que devemos aprender com os testemunhos desse primeiro período para dar início a um novo caminho, ainda mais belo.

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