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As confusões econômicas dos telejornais e a alergia aos competentes

Os comentários de "Il Sole 24 Ore" - Mind the Economy, por Vittorio Pelligra para o Sole 24 ore

por Vittorio Pelligra

publicado no Sole 24 ore no dia 03/03/2019

Noite adentro – sala de casa: é quinta-feira e trabalhei até tarde. Agora estou no sofá e escuto o Jornal de uma das redes RAI. Várias notícias, política externa, economia e inflação. Há um serviço comentando os dados econômicos do mês de fevereiro do Instituto Nacional de Estatística italiano – ISTAT. Depois em direta e, explicando o vídeo, a jornalista conclui dizendo: “os preços dos produtos alimentícios foram triplicados”. Triplicados?!? Não pode ser uma distração, pois as notícias do telejornal da noite são lidas, alguém deve ter escrito aquilo. Os preços foram triplicados. Isto quer dizer que os tomates passaram de 3 euros para 9 euros o quilo? É uma lorota, é claro. Como pode ser que uma redação de um Jornal de nível nacional deixe passar em direta uma notícia a grosso modo tão errada? Nem precisa ser um economista ou estatístico, para saber que se na verdade os preços tivessem triplicado estaríamos diante de uma inflação de 300%, um problema sério, gravíssimo, e aquela notícia não seria a quinta da escala, mas a notícia de abertura.

Isso me deixou curioso. Me encontro gripado em casa e estou entediado. Neste momento baixa o Sherlock Holmes. Tento entender como pode ter ocorrido aquele engano. Era uma quinta-feira e o ISTAT tinha divulgado os dados parciais sobre a inflação de fevereiro. No comunicado da imprensa, divulgado pelo Instituto, entre outras coisas informa que “os preços dos produtos de grande consumo aceleraram seu crescimento: os bens alimentícios, de higiene da casa e das pessoas passaram de +0,6% para +2,1%”.

Esse foi o comunicado vindo da fonte oficial. A seguir chegam as agências de notícias. Neste caso, as informações são reenviadas imediatamente pela ANSA – Agência de Notícias Italiana, que mudou ligeiramente o comunicado: “O encarecimento das despesas do carrinho de compras triplica em fevereiro, com aumentos que passam de 0,6% em janeiro para 2,1% em fevereiro”. Atenção, atenção! A ANSA corretamente, reporta que o “encarecimento” triplicou, isto é, a velocidade com que os preços aumentaram foi triplicada. Em seguida vem o telejornal da RAI que, ao contrário, inflexível como um trem, faz a sua própria âncora dizer, em direta nacional, que os “preços” dos produtos alimentícios foram triplicados. O que equivaleria afirmar que a inflação tinha atingido não os 2,1%, mas os 300%. Seria como pensar que o meu peso hoje fosse triplicado em relação àquele do mês passado. Explico: há três meses atrás eu pesava 80 kg e há dois meses passei de 80 para 81. Significa que eu engordei 1kg em um mês. Se nesta semana resulta que engordei o triplo em relação ao mês precedente, quer dizer que eu adquiri 3 kg e, portanto, hoje pesarei 84 kg, e não 240.

Pode parecer um episódio pequeno, insignificante, mas na realidade é uma coisa que lança mais de uma sombra sobre a qualidade da informação, especialmente na área econômica, que recebemos de certos órgãos da imprensa. Se interpretam tão incorretamente os dados sobre a inflação, como podemos confiar nas avaliações de política externa ou nas informações sobre novas tecnologias? Quanto realmente compreendem sobre o significado do último estudo epidemiológico de que nos falam, e quanto conseguem entender fontes confiáveis dos causadores de confusão?

Seria interessante saber quantos e-mails de telespectadores indignados chegaram à redação sobre o telejornal daquele dia. Seria ainda mais interessante saber se o redator da notícia se deu conta da gafe. O vídeo daquela edição ainda está no site oficial da RAI, isso significa que provavelmente ninguém percebeu nada. E isto é um problema. Se a demanda por uma informação, mesmo econômica e numérica em geral é baixa, e a pressão por parte dos usuários não se faz sentir o bastante, então a oferta tenderá há um afrouxamento, desleixo e a baixar a qualidade.

O episódio de quinta-feira passada é grave, mas não gravíssimo, reconheço. Não seria de escandalizar-se tanto se fosse só um fato isolado. Infelizmente, não o é. No dia 25 de janeiro passado, a RAI 2 em onda de rádio, dentro da transmissão “Pobre Pátria”, afronta o tema do domínio bancário, um dos cavalos de batalha da “galáxia absolutista/fabulista/não-euro”. O comentário, porém, foi tão grosseiramente impreciso, superficial e falso em seu conteúdo, que provocou reações duríssimas nos mais altos níveis. Chega a “Autoridade”, com o seu bastão, para que se promova garantias nas Agências de Comunicação, e envia uma contestação à RAI pedindo que a mesma transmissão apresente explicações imediatas, e garanta completude e pluralidade na informação econômica, com o envolvimento de especialistas qualificados e de notória competência. Em seguida, chega uma carta endereçada aos vértices da RAI e das Redes de Comunicação, emitida pela Sociedade Italiana dos Economistas. Na carta se manifesta o “grande desconcerto” que deriva do fato que o serviço público tenha conseguido “preterir as normas basilares da divulgação científica”, tratar o tema do domínio bancário de modo “impreciso, inexato e cientificamente falaz nos nexos causais propostos” e que a transmissão chegara a contribuir à “produção e difusão de informações inexatas que a RAI, dentro do seu mandato de serviço público deveria contribuir a combater, especialmente num campo como aquele da economia, no qual a escola italiana não oferece nem mesmo os mais elementares conhecimentos de base”.  

Logo, o Conselho diretor dos economistas italianos conclui, expressando “viva preocupação” e solicitando que “os conteúdos econômicos das transmissões da RAI sejam confiados a jornalistas competentes, que ponham o conhecimento científico na base dos seus serviços.” Em suma, uma boa puxada de orelha, mesmo se é totalmente plausível que tais recomendações caiam no vazio. Em uma nação que ocupa a penúltima posição entre nações desenvolvidas, naquilo que diz respeito aos conhecimentos numéricos (Pesquisa OCSE-PIAAC sobre populações adultas 16-65 anos) e na qual as instituições mais respeitáveis e independentes têm sido sistematicamente desacreditadas de um modo instrumental, por políticos que parecem não compreender o papel fundamental - no interior de um sistema democrático, policêntrico e moderno, – esperar-se uma informação econômica de nível pode parecer-lhes uma certa veleidade. Isto também se insere no “zeigeist” atual, assegurador e auto absolutista, segundo o qual os experts são precedentemente culpados, sectários e já comprometidos por natureza. Os “professores” tentaram e não o conseguiram, nos meteram em dificuldade com o Euro e com a Europa; para não falar de Monti, a austeridade, a Lei Fornero. Assim, agora em casa a boa vida acabou, cabe a nós”. E, no entanto, bastaria aplicar um pouco de lógica elementar para concluir que se um “especialista” experimenta, mas não consegue, o fato que um “não especialista” tente não faz aumentar de uma só vírgula a probabilidade de sucesso, pelo contrário.

 Com um olhar atento, porém, não se pode deixar de enxergar algo no substrato: a alergia aos que têm “competência” - que certa política hoje manifesta de um modo evidente - aparece mais ainda como um capítulo da narração populista. Uma componente importante de um quebra-cabeça que se vai formando na galáxia da direita sovietista, de Moscou a Washington, passando igualmente por Roma. Esse não seria, certamente, o primeiro caso histórico de promoção pública da ignorância. Ao povo deixamos histórias, mitos, mamóns, e descreditamos o conhecimento objetivo, de forma que seja mais flexível, maleável e plasmática a segunda das exigências do momento. Ninguém se lamentará. Por certo o nosso cérebro constrói histórias, e não equações. Nos anos noventa a “Matteo” lançou no comércio uma versão da Barbie falante. Entre as várias frases que pronunciava havia também essa: “A matemática é difícil, vamos ao shopping!”. Talvez ela tivesse razão.

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