A inteligência da mansidão das mãos

Regenerações/8 - A lógica das bem-aventuranças revela-se nas provas e nos empreendimentos exigentes

por Luigino Bruni

publicado no Avvenire no dia 20/09/2015

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"Entre todos aqueles caracóis ao vento, entre todos aqueles louros corimbos, parecia que aquela cabeça prateada, dissesse com tremor, crianças, sim... pequenos, sim... E as crianças procuravam em festa por vezes, com grito alegre, as mãos trémulas e a cabeça em que só vivia aquele pobre sim"

Giovanni Pascoli, La nonna(a avó)

As bem-aventuranças não são virtudes, não são um discurso ético sobre as ações humanas. São antes o reconhecimento de que, no mundo, existem já os pobres, os mansos, os puros de coração, os que choram, os que são perseguidos por causa da justiça, os misericordiosos. E chamam-lhes 'felizes'.

As bem-aventuranças são, acima de tudo, uma revelação, um retirar o véu para ver uma realidade mais profunda e mais verdadeira do que parece. O evangelho não nos apresenta uma ética da virtude (esta já existia), mas dá-nos e revela-nos o humanismo das bem-aventuranças (que não existe ainda e, por isso, pode sempre chegar). Se compreendêssemos e vivêssemos a lógica das Bem-aventuranças, deveríamos ir para as ruas, para as praças, para as empresas, para os campos de refugiados, olhar ao redor e repetir com e como Jesus de Nazaré: "Bem-aventurados, bem-aventurados ...".

Há demasiados puros de coração, perseguidos por causa da justiça, pobres, mansos, que ainda estão à espera de serem chamados ‘bem-aventurados'. Não sabemos que somos bem-aventurados até que alguém nos vê, nos reconhece e nos chama com este nome maravilhoso. Quando Moisés desceu do Monte Sinai, com novas tábuas da Lei, ele não sabia que o seu rosto se tornara resplandecente (Êxodo 34, 29). Foi o seu povo que lhe revelou a presença daquela luz especial. A luz sobre o rosto e toda a felicidade aparecem dentro de um relacionamento. Começamos a descobrir sermos felizes na pobreza, nas perseguições, durante o choro, nosso e dos outros, porque alguém que nos ama no-lo diz, no-lo recorda. As bem-aventuranças mais importantes são as dos outros. E as nossas despertam somente quando são chamadas pelo nome.

A mansidão existe, encontramo-la todos os dias, faz-nos viver e, graças a ela, fazemos viver quem está à nossa volta. Os mansos reconhecem-se antes de mais pela ternura, têm a mesma raiz. Manso, ameno, terno. Os mansos desenvolvem uma amizade especial com as mãos - a palavra latina evoca a docilidade com que os cordeiros deixam passar sobre o dorso a mão do seu pastor. Esta ternura é a oposto da romântica e sentimental, que inunda os talk show e os spot publicitários. Os mansos conhecem o canto espiritual sublime das mãos.

Antes de mais, são dóceis à ação da mão que os trabalha, sabem deixar-se trabalhar. Esta é a primeira dimensão da mansidão: saber estar quietos e dóceis, especialmente nos dias em que a mão da vida se faz sentir mais intensamente. Para reconhecer os mansos é necessário, então, observá-los nos momentos da doença, durante as provas e, acima de tudo, no encontro com a morte. A mansidão é ajuda crucial durante os abandonos, os lutos, os desertos interiores e exteriores, quando, como o cordeiro, devemos dispor-nos docilmente para deixar que a mão do pastor faça o seu trabalho. E nós o nosso: a mansidão é o oposto da passividade. É um trabalho contínuo, tenaz e perseverante. A mansidão é a bem-aventurança dos pobres, que conseguem ficar e viver em condições impossíveis para os não-mansos.

Encontramos, muitas vezes, a mansidão entre os idosos e os velhos. A mansidão de coração assemelha-se com a macieza do fruto maduro, que realiza o seu desígnio tornando-se alimento para os outros, caindo e nutrindo a terra. Os olhos mais mansos que conheci foram olhos de idosos e ainda mais de idosas. Só esses olhos têm as cores deslumbrantes e luminosas do último Outono.

Não é raro que uma pessoa revele toda a sua mansidão escondida (até para si mesma) na última fase da vida, nos últimos dias, na última hora. Quando consegue confiar-se docilmente às mãos de enfermeiros e médicos, virada e revirada no leito, mansa na mão que passa durante a vigília, nas últimas noites infinitas. Ou quando conseguimos, por um dom inesperado, vislumbrar a mão do anjo da morte e reconhecê-la como a mão boa e amiga do pastor e, assim, deixar-se abraçar e acariciar por ela no último abraço-dança da vida. Então, a primeira terra que o manso herda é aquele pequeno lenço que o acolhe, benigna e irmã, quando, por fim regressa a casa. Como Abraão, que obedientemente seguiu a voz que o chamava para uma terra prometida e que morreu, exilado e estrangeiro, possuindo apenas a terra para o túmulo comprada aos hititas, para sepultar a sua esposa Sarah.

Mas o manso, acostumado à ação das mãos de outros, também usa as suas mãos para abraçar, para curar, para acolher um amigo, para abrigar um arrependimento. Os mansos abraçam, apertam, choram juntos e sabem que não se conhece alguém sem o ter estreitado ao peito, sem ter-lhe beijado a face, no beijo da paz. Eles conhecem e usam a linguagem humilde e forte do corpo, a linguagem da carícia, são mestres da ternura e da inteligência das mãos. Todos somos capazes de acariciar os nossos filhos e todos nós sabemos acariciar quem amamos. Estas carícias fazem parte do repertório de base dos seres humanos - e dos outros primatas superiores. Mas só os mansos sabem e podem acariciar quem quer que seja: crianças e adultos, famílias e desconhecidos (só os mansos deveriam acariciar os filhos dos outros). E assim, com o exercício das mãos, tratam aquelas feridas das solidões e dos abandonos que só se curam quando sentem passar sobre a pele, ligeiramente, uma mão amiga. Se não existisse a multidão de mansos que habitam hospitais, enfermarias de pediatria, escolas, centros de acolhimento, cooperativas sociais e atuam como voluntários nas prisões, nas estações e ao longo das ruas à noite, a vida, nesses lugares, seria impossível ou demasiado dolorosa. Bem-aventurados os mansos, bem-aventurados quem os encontram e por eles é acariciado e amado.

Os mansos, então, são necessários para desarmar os conflitos e reconstruir a concórdia e a paz em todo o lado. Se no desenvolvimento de um conflito (entre irmãos por causa de uma herança, entre colegas, entre sócios, dentro de uma comunidade) não intervém a ação de, pelo menos, um manso, as únicas soluções encontradas são as dos tribunais - que nunca são verdadeiras soluções nas relações primárias das nossas vidas: é o abraço dos corpos e das mãos a única verdadeira resolução de conflitos entre irmãos e amigos. Os mansos tudo cobrem, tudo suportam.

Aos mansos é prometida a terra: é esta a sua herança. Mas a terra no humanismo bíblico pertence a Deus: "Minha é toda a terra” (Êxodo 19, 5). É neste horizonte que deve, então, ser lida então esta bem-aventurança (e todas as outras). Nós somos apenas donos temporários e passageiros de uma terra que não é nossa. A primeira lei da terra é a gratuidade, toda a terra e todas as terras são, em primeiro lugar, bens comuns e, depois, bens usados com responsabilidade e cuidado para o nosso bem-estar (shalom). Então, o manso possui cada terra não a possuindo; e, por isso, partilha-a. Sente-a como herança recebida gratuitamente, não como mercadoria adquirida nos mercados; e, como tal, quererá deixá-la aos próprios filhos. Ele abre as portas da sua casa, porque sabe que ela é, verdadeiramente, também dos outros, de todos. E quando, a sua casa se enche de não-familiares, não se sente nem um herói nem um altruísta, mas apenas alguém que possui uma terra recebida como oferta e herança, mesmo quando a comprou com os salários pesados do trabalho emigrante, com as economias de uma vida inteira. Cada uma das nossas propriedades é segunda, porque toda a terra é de YHWH e, portanto, não é de ninguém nem de todos. A terra é sempre terra prometida, está para além de um Jordão que contemplamos mas não atravessamos.

E se aos mansos é prometida a terra, então a terra prometida é a terra dos mansos. Cada terra habitada pelos mansos torna-se já terra prometida. Também a terra da nossa cidade, do nosso bairro, da minha casa, se torna terra prometida, se houver nela pelo menos um manso.

Mas o manso vive também a sua vida como terra herdada. No decurso da existência, chega quase sempre um momento decisivo quando entendermos, cada um de modo diferente, que a vida que estamos a levar não é aquela que queríamos ter. A árvore que floresceu a partir das sementes da juventude não é a que pensávamos ou queríamos. O manso encontra a sua felicidade-bem-aventurança acolhendo com docilidade a vida que está a viver porque entende que, para ele, para ela, não há uma árvore melhor crescida fora daquela sua terra. Nenhuma árvore se assemelha à semente, nenhuma boa vida adulta coincide com as esperanças da juventude - e se coincide não é boa. Esta mansidão é o contrário da resignação, porque enquanto o resignado perante a desilusão da vida adulta se torna triste, amargurado e apagado, o manso está feliz e reconciliado. São muitos, inumeráveis, os mansos que encontram a sua felicidade nas famílias, comunidades religiosas, que se revelaram ao longo do tempo diferentes das escolhidas e sonhadas, às vezes muito diferentes, demasiado diferentes para os não-mansos. Os mansos são capazes de florescer em cenários que não estavam no programa no dia do casamento ou da ordenação religiosa, mas uma vez ali chegados, abraçaram-nos com a mesma ternura com que abraçaram no primeiro dia a esposa. Os abraços dos mansos são todos iguais. Nós não podemos controlar todos os eventos que, dentro e fora de nós, determinam a nossa felicidade. As maiores coisas da vida não as escolhemos. São herança que nós não compramos nem merecemos. Podemos rejeitá-las e fugir em busca de uma terra única e exclusivamente nossa. O manso, pelo contrário, acolhe-as plenamente, sem benefício do inventário. Fá-las entrar em sua casa e pôr a mesa com a mais bela toalha. E um dia, surpreendendo-se, consegue festejar, encontrando-se finalmente adulto e maduro. Há poucas alegrias maiores do que aquelas que florescem das festas celebradas juntamente com as nossas desilusões. Os mansos conhecem esta festa, saboreiam esta alegria madura e são abençoados. "Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra."

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