Os pactos são sangue e carne

Maiores que a culpa / 7 – A Aliança bíblica estabelece compromisso e perdão recíprocos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 04/03/2018

Piu grandi della colpa 07 rid«Procurarei ajudar-te enquanto não fores destruído dentro de mim. Uma coisa, porém, se torna cada vez mais evidente para mim, isto é, que tu não podes ajudar-nos, mas que somos nós a ter de te ajudar… Também já posso perdoar a Deus, porque a situação é a que, certamente, deve ser. Que se possa ter tanto amor a ponto de poder perdoar a Deus!»

Etty Hillesum Diário, 1942

Em muitos episódios-chave da vida, não basta apenas um relato; é demasiado pouco. Para dizer o que aconteceu no dia em que somos conhecidos ou em que ouvimos chamar-nos pelo nome, uma única voz não basta. Temos de contar muitas vezes os momentos determinantes; temos de os contar a pessoas diferentes e, a cada uma, do seu modo. As coisas repetidas favorecem quem as conta e quem as ouve. Quando esta bio-diversidade falta, é negada ou é combatida, os nossos relatos empobrecem, o mistério da vida escapa-se-nos. A multiplicidade das histórias protege da ideologia, que se desenvolve quando é atribuído, a uma única narração, o crisma de verdade e a todas as outras o da heresia. Esta multiplicidade e variedade de relatos, geralmente, perturbam o homem moderno na busca de acordo nos dados históricos; mas, para o escritor bíblico, pelo contrário, é uma linguagem para mostrar a grandeza e a importância dos episódios que está a narrar. A não-avareza e a generosidade emergem também da abundância com que acompanha as suas histórias mais bonitas; como nas cartas de amor, onde os adjetivos se somam, para dizer um pouco o que não conseguimos dizer – a Bíblia é uma longa e única carta de amor dirigia a nós e que, frequentemente, permanece dentro do sobrescrito. A verdade é sinfónica, sempre.

São, pelo menos, três as narrações da vocação de Saul, que encontramos nos Livros de Samuel, cada uma diferente das outras, porque expressões das várias tribos e cidades ligadas às figuras de Saul (e de Samuel). E, assim, depois dos dois relatos que já encontrámos, agora, o texto traz-nos uma outra tradição sobre a consagração do rei Saul: “Naás, o amonita, pôs-se em campanha e atacou Jabés, em Guilead. Todos os habitantes de Jabés lhe disseram: «Faz connosco uma aliança e seremos teus servos.» Naás, o amonita, respondeu-lhes: «Só farei aliança convosco com a condição de vos tirar a todos o olho direito. Infligirei esta vergonha a todo o Israel»” (1 Samuel 11, 1-2).

Estamos dentro duma narração muito densa, rica, tremenda. A ameaça vem dos Amonitas. Os hebreus pedem um pacto de vassalagem, mas Naás (isto é, a ‘serpente’) humilha-os, propondo-lhes uma pacto tremendo e ultrajante: arrancar o olho direito a todos os hebreus. No manuscrito dos Livros de Samuel, encontrado em Qumran, mais antigo e, provavelmente, original, descobrimos que aquele pacto nefasto e maluco, foi implementado: “Naás tinha oprimido duramente os gadistas e rubenitas, arrancando o olho direito a cada um deles. Mas sete mil homens fugiram dos amonitas e chegaram a Jabés de Guilead”.

Para entrar um pouco dentro destas páginas duríssimas e longínquas, embora tendo uma grande sabedoria, uma chave de leitura é-nos oferecida pela grande categoria bíblica da Aliança (berit). O pacto entre YHWH e Israel, o ato originário e fundador desta experiência religiosa e social diferente e única, é descrito na Bíblia tomando como paradigma próprio um dos pactos de vassalagem do Médio Oriente que aqueles hebreus tinham pedido aos amonitas. O relato deste pacto absurdo também pode fazer-nos entrever, embora em contraluz, algo do significado que a Aliança tem no humanismo bíblico. Num povo pequeno, perante o fracasso dos pactos políticos, amadurece, progressivamente, a consciência da existência da aliança numa outra possibilidade impensada: fazer um pacto com Deus. Encontrar o aliado bom a afável, numa realidade que não se vê e que não se pode representar. Um aliado que não arranca o olho direito, mas dá um outro para ver o invisível. Viver a relação com Deus como um pacto com o invisível, no meio de povos que adoram apenas coisas visíveis e tocáveis (mas mudas), permitiu àquele povo, pequeno e conflituoso, gerar invocações teológicas e espirituais extraordinárias. De facto, o que espanta na Aliança bíblica, não é a sua diversidade mas a sua semelhança com os pactos político-comerciais do tempo e também à sua estrutura recíproca. Nos pactos, cada uma das duas partes compromete- se a respeitá-los. A genialidade foi aplicar a Deus o status de aliado, estipular um contrato social e perene com uma voz, à qual se reconhece a possibilidade de estar dentro de um pacto de reciprocidade, de compromisso mútuo. Um pacto chegado aos hebreus como dom. Mas um dom que era um pacto e, portanto, reciprocidade e benefício mútuo, onde ambas as partes beneficiam.

Então, uma hipótese perturbante, subjacente à própria ideia de Aliança, é a ideia que também Deus tenha benefício da relação com os homens, um benefício diferente, assimétrico, mas que a categoria de Aliança nos legitima a chamar benefício. A categoria da Aliança diz-nos que, se YHWH obtém um benefício em se aliar connosco, a nossa fidelidade àquela aliança e àquele pacto enriquece também Deus, muda-O, melhora-O. O Deus bíblico, o do Antigo e do Novo Testamento (que é o mesmo) não é o ser perfeitíssimo, porque a nossa fidelidade ao pacto O faz ‘mais perfeito’ (e também ‘menos perfeito’ as nossas infidelidades). Pelo menos, é este o pensamento bíblico, uma teologia que se torna, imediatamente, um humanismo maravilhoso. Se fomos criados à ‘imagem e semelhança’ de um Deus que á capaz de pactos, também nós nos alegramos com a fidelidade de Deus e sofremos pelas suas ‘infidelidades’: quando ‘adormece’ e nós ficamos escravos, quando, inocentes, nos deixa no monte de esterco com Job, ou quando abandona o seu Filho e os nossos nas cruzes infinitas da história. A lógica da Aliança permite-nos, também, imaginar o impensável. Como nos revelou Etty Hillesum, no seu lager, deixando-nos em herança uma das páginas humanas mais altas do séc. XX: mesmo nos abandonos mais sombrios, podemos salvar a fé na Aliança se aprendemos a perdoar a Deus. Algo que faz estremecer a alma, que dá uma infinita substância e seriedade à fidelidade aos nossos pactos ‘debaixo do sol’. E, quando somos traídos e enganados nos nossos pactos, nos perdoamos e sabemos recomeçar juntos, podemos esperar que alguém ‘debaixo do sol’, possa compreender-nos porque, talvez, estas nossas alegrias e estas dores se assemelham às suas. Então, não nos devemos admirar por, no fim do discurso de Samuel, que se segue a estes factos, encontrar a referência à Aliança: “YHWH, por amor do seu grande nome, não vos abandonará, pois YHWH quis fazer de vós o seu povo» (12, 22).

Após o pedido deste pacto absurdo, chegam junto de Saul mensageiros de Jabés, que lhe contam o acontecimento: “Todo o povo se pôs a chorar em alta voz… O espírito do Senhor apoderou-se de Saul. E Saul ficou enfurecido. Tomando uma junta de bois, fê-la em pedaços e mandou-os pelos mensageiros a todo o território de Israel” (11, 4-7).

Estamos dentro de uma tradição sobre a tribo de Benjamim e estamos na cidade de Guibeá. O leitor acostumado à leitura bíblica, diante de Saul que transforma os seus bois em ‘mensageiros de carne’, não pode deixar de pensar imediatamente na trágica história do levita, narrada pelo Livro dos Juízes. Naquela noite, entre as mais escuras da Bíblia, um levita, de passagem por aquela cidade de Guibeá, com a sua mulher, é hospedado, durante a noite, por um velho. Um grupo de habitantes irrompe pela sua casa e violam a mulher. Na manhã seguinte, o levita, “tendo chegado a casa, pegou num cutelo e, agarrando na sua concubina, esquartejou-a membro a membro em doze pedaços, enviando-os depois a todas as tribos de Israel. A quem levava isto, ordenou: «Direis assim a todo o homem de Israel: «Nunca aconteceu nem se viu tal coisa, desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egipto até este dia. Pensai bem nisto! Consultai-vos sobre isto e pronunciai-vos!» (Juízes 19, 29-30). Antes de fazer o comentário, devemos parar um momento, experimentar superar a dor e a perturbação perante tal relato, e às ‘muitas coisas semelhantes’ que, infelizmente, continuam a acontecer. E não é fácil… Depois, descobrimos uma forte afinidade entre os dois episódios. O amonita ultrajou o pedido de pacto daqueles hebreus. Os benjaminitas profanaram o pacto de hospitalidade, um dos mais sagrados. Os pactos e as alianças, naqueles povos antigos, celebravam-se esquartejando animais, com a linguagem da carne e do sangue. Deus estabeleceu a sua Aliança com Abraão, passando como fogo no meio de animais esquartejados.

São linguagens fortíssimas, arcaicas, primitivas, que não compreendemos. Mas, se conseguimos olhá-las nos ‘olhos’, ainda nos falam. Podemos ler o sangue e a carne dos pactos na Bíblia para construir uma imagem de um Deus sedento do nosso sangue e até do do seu Filho crucificado, com o qual de dessedenta para aplacar a sua ira com o mundo. E, assim, não vamos muito longe; permanecemos bloqueados pelos mitos do Medio Oriente, dos quais há vestígios também na Bíblia e que continuam a influenciar também algumas leituras cristãs do sacrifício e a teologia da expiação.

Mas, daquela carne e daquele sangue, pode também começar uma outra história, muito diferente. A que nos diz que os pactos são coisas tremendamente sérias, como o são o sangue e a carne, porque são a carne e o sangue da vida em conjunto. Aqueles homens, para mostrar a seriedade e o valor da vida, usavam as palavras mais fortes que tinham à disposição. Para nos dizer que as promessas e os pactos são importantes e sérios como a carne e o sangue dos filhos, dos maridos, das mulheres, dos pais, dos irmãos. Podemos assinar e dissolver milhares de contratos, sem que nos deixem qualquer sinal. Com os pactos, não o podemos fazer. Estes são feitos de carne e de sangue e, por isso, quando decidimos cortá-los para sair, os seus sinais permanecem para sempre gravados na nossa carne. Toda a aliança é uma ferida; como é uma ferida a fé, a fissura em direção ao céu que, por toda a vida, procuramos não fechar, que esperamos que esteja ainda aberta, quando fecharmos os olhos e, talvez assim, através dela, ver Deus.

Num outro dia, numa outra noite, a Bíblia enviou-nos uma outra mensagem de carne. Desta vez, era um menino maravilhoso, palavra feita carne e sangue. Num outro dia, aquele menino maravilhoso, tornado homem, foi suspenso numa cruz, outro sangue e outra carne verdadeiros. Outras mensagens incarnadas, que a Bíblia, suave, continua a guardar-nos.

Depois de Saul ter derrotado os amonitas, “todo o povo foi para Guilgal e ali proclamaram rei a Saul, na presença do Senhor, e ofereceram naquele lugar sacrifícios de comunhão. E Saul, com todo o povo de Israel, alegrou-se grandemente” (11, 15).

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