A grande oração das mulheres

Maiores que a culpa / 1 – As palavras sem fôlego das vítimas valem mais que todas

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 21/01/2018

Piu grandi della colpa 01 rid«A Bíblia conhece o lamento. O lamento é um momento extremamente crítico na relação com Deus, enquanto Deus não console o homem e o homem não console Deus. Profecia e liturgia transportam os lamentos para a frente e para trás, entre o céu e a terra»

Paolo De Benedetti, La chiamata di Samuele e altre letture [A chamada de Samuel e outras leituras]

Começamos a leitura e o comentário dos dois livros de Samuel. E começa o tempo de uma alegria nova, a que, talvez, só o contacto interior com o imenso texto bíblico consegue, por vezes, dar. Sobretudo no início, no sábado da espera, naquela alegria matinal que inunda a alma, antes de saber se e quais palavras nascerão deste novo encontro com as palavras in-finitas da Bíblia. Antes de saber se e como seremos capazes de as tornar um discurso sobre o nosso tempo, sobre os nossos reinos, prantos, vocações, traições, orações.

Samuel é um texto que contém personagens e episódios, entre os mais populares e estupendos da Bíblia, da história de Israel, da literatura, da piedade popular. De todas as palavras que o génio humano soube escrever. Basta pronunciar apenas um nome: David, nomear apenas uma cidade: Belém. Se aqueles longínquos escritores não tivessem guardado e transmitido estas histórias, Miguel Ângelo, Bernini, Alfieri teriam menos palavras à disposição para embelezar o mundo. E estaríamos, todos, mais pobres.

Porém, para abordarmos estes textos e receber a sua bênção, há necessidade de um exercício e de uma ascese específica intencional. É preciso provar ser capaz de não ter medo das impurezas, das mestiçagens, das contaminações, dos pecados. De olhar de frente os delitos que, frequentemente, acontecem nas áreas fronteiriças e nos lugares inseguros e escuros que são os cruzamentos das estradas, as suas cruzes, os seus crucificados. Não se encontra David sem sentir na carne da nossa alma a sua pietas para com Saul, a sua paixão malvada por Bersabé, o seu grito de dor depois da parábola do profeta Natã. Os personagens da Bíblia – como e mais que os de todas as obras-primas narrativas – só nos mudarão se se incarnam em nós. Se morremos com Urias, o hitita, se entramos desesperados e cheios de esperança no templo com Ana, se com e como ela nos lamentamos, choramos, pedimos uma criança que ponha termo à nossa esterilidade e, depois, mulheres e homens, geremos o filho da promessa. Se, depois, voltamos, com Ana e o seu filho Samuel, ao templo, e cantamos com ela o seu magnificat e, um outro dia, o cantamos de novo com Isabel, a estéril, e com Maria. Se, numa noite, ouvimos a chamar-nos três vezes pelo nome, não reconhecemos a voz que nos chama e um amigo nos diz: “É o Senhor”. Nós acreditamos e pronunciamos a palavra maravilhosa: “Eis-me aqui”.

Os livros de Samuel são povoados por homens e mulheres que não são nem piores nem melhores que nós, que os lemos: são, exatamente, como nós. Imensos, fiéis e infinitos, como nós; e, como nós, frágeis, infiéis e pecadores. Talvez a mensagem humana e ética mais alta que podemos encontrar na Bíblia é a humildade verdadeira daqueles antigos escritores hebreus que quiseram colocar como alicerces da sua história sagrada, como colunas da sua história com o Deus mais elevado e verdadeiro, homens e mulheres de carne e osso. Sara, Rebeca, Jacob, o enganador, os fundadores das tribos de Israel, vendedores por lucro do irmão sonhador. Moisés homicida, Arão construtor do bezerro de ouro. David assassino e imagem do Messias. A Bíblia não teve medo dos homens e das mulheres completos e, assim, dá-nos a sua palavra mais bonita: se queres encontrar Deus na terra, deves frequentar a terra suja e maculada das mulheres e dos homens verdadeiros.

Samuel é um livro integrado numa paisagem epocal da “história teológica” de Israel, entre o fim do tempo dos Juízes e o nascimento da monarquia (que a cronologia clássica coloca à volta do ano 1000 a.C.). É um livro sobre a fronteira, um livro de fronteira. A própria figura de Samuel é uma fronteira e uma passagem. Samuel é o último Juiz e consagrador do primeiro Rei; é primícia de uma nova profecia em Israel e no mundo, mas também herdeiro da arcaica figura do vidente-xamã, muito comum nos povos cananeus e no Egipto.  Promíscuo e mestiço como todas as fronteiras, fim e princípio, ocaso e aurora, vau, lutador noturno, Jacob e Israel.

A extraordinária beleza narrativa e espiritual destes livros depende também, decididamente, da presença de muitos outros protagonistas, magistralmente descritos. Entre estes, estão muitas mulheres, muitas orações de mulheres, muita dor, muitas vítimas, muitíssima beleza.

«Havia em Ramataim um homem de Suf, nas montanhas de Efraim, chamado Elcana… Tinha duas mulheres, uma chamada Ana e outra Penina. Esta tinha filhos; Ana, porém, não tinha nenhum» (1 Samuel 1, 1-2). O livro abre com uma rivalidade entre mulheres, um conflito entre duas esposas: «A sua rival afligia-a duramente, humilhando-a, por o Senhor a ter feito estéril. (…) Penina zombava dela. Ana chorava e não comia» (1, 6-7). Ana (“a fascinante”) e Penina (“a fecunda”), duas mulheres com duas belezas diferentes. Mas, naquele mundo antigo, a fecundidade vencia a beleza e a mulher estéril era humilhada pela vida, pela comunidade e pela religião («YHWH tinha tornado estéril o seio»). A beleza do corpo e do coração vinham depois da “beleza” do seio. Os filhos são o primeiro paraíso da Bíblia, a sua vida eterna, a verdade da Promessa e da Aliança. Nos seus rostos resplandece a imagem do Deus diferente e único. Para que o homem bíblico possa decifrar a imagem de YHWH na terra, não basta olhar para Adão nem para Eva. Deve vê-la num filho; toda a criança é um Emanuel (Deus connosco).

Um humanismo esplêndido e fascinante, mas que complicou, durante milénios, a compreensão da verdade e da dignidade das mulheres, de todas as mulheres, antes e independentemente do seu ser mães na carne. Nestes primeiros versículos de Samuel encontramos, portanto, um eco do grito de todas as mulheres oprimidas e mortificadas, num mundo de homens que, por vezes, as amavam, mas, geralmente, não as compreendiam, mesmo quando eram fecundas e fascinantes. Mas a Bíblia, por vezes, consegue perfurar o tempo e dar-nos frases que nos surpreendem, que não deveriam existir, mas existem. A profecia da Bíblia não é um monopólio dos profetas. Toda a Bíblia está orvalhada dela e emerge quando uma página se eleva do seu tempo com a sua ideia de Deus, de homem e de mulher, e nos descreve um outro Deus que ainda não existe, um homem e uma mulher maiores que a sua culpa, do seu mundo e da sua religião. E são as páginas mais bonitas, verdadeiramente infinitas. Como estas palavras de Elcana: «Ana, porque choras? Porque não comes? Porque estás triste? Não valho para ti tanto como dez filhos?» (1, 8). Palavras maravilhosas, que ainda hoje são repetidas, ao derramar lagrimas amalgamadas, nas casas de muitos casais que se amam com um amor que as lágrimas tornam capaz de generatividades diferentes.

A relação rival e antagonista que, frequentemente, encontramos na Bíblia, não é um exclusivo dos homens. A sabedoria antropológica da Bíblia diz-nos que também as mulheres têm a sua rivalidade (Sara e Agar, Raquel e Lia…), que está ligada à geração. Os homens, geralmente irmãos, lutam pela primogenitura e pelo poder; as mulheres competem pela vida e não são irmãs. A dizer-nos que a diversidade da mulher, o seu talento especial e, em muitas coisas, maiores que a dos machos, não a exonera desta típica doença do viver juntos; e que, embora sendo verdadeiramente diferentes, as mulheres e os homens são verdadeiramente iguais, semelhantes, parecidos, espelho, ezer-kenegdo um da outra.

A rivalidade, também aqui, é acompanhada de uma outra constante do humanismo bíblico: a predileção: «Todos os anos, este homem subia da sua cidade a Silo, para adorar o Senhor do universo e oferecer-lhe um sacrifício… Cada vez que Elcana oferecia um sacrifício, dava a porção correspondente à sua mulher Penina, bem como aos seus filhos e filhas. Mas dava uma porção dupla a Ana, porque a amava mais, embora o Senhor a tivesse tornado estéril» (1, 3-5).

A predileção e o amor sincero do seu marido não são, porém, suficientes para a consolar. Ana deixa o banquete sacrificial e dirige-se ao templo de Silo, onde trabalhava Eli, o sumo-sacerdote: «Ana, profundamente amargurada, orou ao Senhor e chorou copiosas lágrimas» (1, 10). Um lamento, um pranto-oração por um filho. Orava no coração, numa intimidade que, também aqui, o homem Eli não compreende: «Ana, porém, falava só para si e apenas movia os lábios, sem se lhe ouvir palavra alguma. Eli julga-a ébria (…). Ana respondeu: «Não é assim, meu senhor; a verdade é que sou uma mulher de espírito atribulado; não bebi vinho nem álcool; apenas estava a desabafar as minhas mágoas na presença do Senhor. (…) Só a grandeza da minha dor e da minha aflição é que me fez falar» (1, 13-16). Certas dores e certas angústias – de todos mas, sobretudo, das mulheres – não se podem dizer em voz alta. Porque a vida tirou todo o fôlego. Mas a Bíblia quis registar estas palavras sussurradas para que acompanhem as nossas. E, assim, guardou-nos as palavras estranguladas mais íntimas das vítimas, dos escravos, dos servos, as palavras mais belas de todas as orações: “Lembra-te de mim… não me esqueças” (1,11).

Não existem orações mais humanas e verdadeiras que um “lembra-te de mim, ó Deus” e “não me esqueças”. São as primeiras palavras de todos mas, sobretudo, das vítimas, dos pobres, dos esmagados pela vida e pelos poderosos. “Escuta e recorda, Israel” que o teu Deus te libertou do Egipto, é apenas uma parte da vida e da fé. Antes deste “recorda” dirigido a Israel, que abre o primeiro mandamento da Lei (Dt 6, 5) está o “recorda” gritado a Deus, pelas vítimas, que abre o primeiro mandamento da vida.

Sobre a terra, todos os dias, se elevam muitos “Lembra-te de mim, ó Deus” pronunciados e gritados pelos pobres e oprimidos que não conhecem o nome de Deus, que o esqueceram, que nunca rezaram antes daquele grito dirigido ao céu. Mais verdadeiros e belos que todos os salmos de David. Muitas pessoas aprendem a rezar pelo “excesso de dor”, gritando: “Lembra-te de mim”, “Lembra-te do meu menino”, “não te esqueças do meu irmão”. Muitas pessoas, muitos homens. Sobretudo, muitas mulheres, que mantêm viva a oração da terra com os seus muitos “lembra-te “ e “não te esqueças”.

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