Porque não acaba o mundo

A árvore da vida /16 - A violação de Dina. A vingança leva ao desastre, o agradecimento pacifica.

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 01/06/2014

Logo Albero della vita"Um deles, quando viu que estava curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta. Ajoelhou-se aos pés de Jesus, curvando-se até ao chão em agradecimento. E este era samaritano. Então Jesus perguntou: «Não eram dez os que foram curados? Onde estão os outros nove?»"

(Evangelho de Lucas, 17,15-17)

Perante a história de Dina há só que ficar em silêncio: “Dina, filha de Jacob/Jacó e Lia, saiu um dia do acampamento para ir visitar as mulheres daquela terra. Siquém, descendente de Hamor, o hiveu, chefe daquela terra, viu-a e levou-a consigo para dormir com ela, violentando-a” (34,1).

Ao reviver os tristes acontecimentos deste capítulo do Génesis dá vontade de passar à frente o capítulo inteiro e procurar outras histórias. Mas iremos atravessar também estas desoladoras páginas da condição humana. Também elas são frequentes e ordinárias na história; e, nas entrelinhas, podem esconder mensagens de vida. Grande parte do trabalho para descobrir algumas verdades da condição humana – qualquer que seja a perspetiva que se tenha – está em tentar conciliar Adam e Caim, Noé e Lameque, Sara e Agar; o abraço entre Esaú e Jacob/Jacó; Dina, os raptores e a vingança dos seus irmãos. Ao ler a Bíblia é frequente a tentação de olhar apenas para as páginas luminosas, deixando de lado as negras - tentação fatal! Quando se cai neste erro acaba-se por fazer leituras ideológicas; uma parte torna-se o todo, perdendo-se então de vista a mestiça realidade do humano, que é a mais verdadeira. O autêntico humanismo bíblico não é uma recolha de ‘best practices’; é um olhar de amor e salvação sobre a humanidade inteira. Para afirmar o primado do Adam sobre Caim e a vitória da bênção sobre o mal, não esconde a parte escura da condição humana. Afirma-o olhando bem de frente para a nossa alma e para o nosso corpo; mostra assim que o mal, apresentado na sua força devastadora, não é nem a última nem a primeira palavra nossa.

Dina, a única filha de Jacob/Jacó, deixou um dia o acampamento e as tendas da mãe “para ir visitar as meninas daquela terra”. Segundo a tradição, era muito jovem, talvez ainda menina (Génesis 30,21 e 31,41; o Livro dos Jubileus [30,2] indica 12 anos): foi à procura de amigas. Hoje também, em lugares de guerra e conflito, as crianças passam barricadas e fronteiras visíveis e invisíveis traçadas pelos adultos; ultrapassam-nas, imprudentes e curiosas da vida, à procura de companheiros, de brincadeiras e aventuras. Mas – ontem como hoje – a pureza dos meninos e meninas pode deparar-se com a maldade e os delitos dos adultos; e isso acontece com frequência. Sobretudo as meninas, as jovens, como Dina, são sempre vulneráveis e correm riscos nas suas brincadeiras ou quando a curiosidade as faz sair de casa. Há milénios que nos esforçamos, mas ainda não conseguimos que as brincadeiras e as saídas da tenda das meninas sejam como as dos seus irmãos rapazes: basta que haja um só Siquém na cidade, ou que essa possibilidade exista, para que uma menina não possa sair quando quiser “a procurar amigas” e para que as suas liberdades e oportunidades sejam menores que as dos irmãos. A civilização de um povo é também medida pela sua capacidade de criar condições culturais e institucionais que tornem as ‘caminhadas de Dina’ cada vez mais possíveis e seguras.

Depois do rapto e da violação, a comunidade dos hiveus (cananeus) pede a Jacob/Jacó e seus filhos que o violador Siquém possa casar com Dina (um “matrimónio reparador”) com a oferta de abundante dote e prenda de casamento: “podem pedir até uma quantia mais elevada do que é costume dar-se e presentes especiais” (34,12). Mas Simeão e Levi, dois dos irmãos de Dina, quando a negociação parecia já chegar a bom porto, “agarraram cada um uma espada, entraram tranquilamente na cidade e mataram todos os homens” (34,25). É frequente na literatura antiga encontrar a imagem da guerra desencadeada pelo rapto de uma mulher (Helena, as Sabinas, …). Mas neste caso a guerra e a violência substituem as alianças pacíficas e boas com os povos cananeus que por várias vezes encontrámos nos ciclos de Abraão e de Isaac. Jacob/Jacó, ele também homem da Aliança, das alianças e dos pactos – e que de forma misteriosa e ambígua permanece muito em segundo plano neste episódio de Dina –  diz aos filhos: “Vocês arruinaram-me. Fizeram com que os habitantes deste país passem a odiar-me” (35,30). Ele não pode aprovar aquela conclusão homicida que inesperadamente fez voltar o povo da promessa às violências anteriores ao arco-íris de Noé.

Com o regresso de Dina à sua família, o Génesis retoma a história de Jacob/Jacó, das suas epifanias e do seu caminho. De facto, Eloim voltou a falar-lhe: “Sai daqui, vai viver para Betel e constrói lá um altar ao Deus que te apareceu quando ias a fugir do teu irmão Esaú” (35,1). Em Betel, na fuga para casa de Labão, tinha recebido em sonho uma vocação pessoal (28,13), tinha visto a escada do céu; iniciara-se alí a sua verdadeira história. Jacob/Jacó-Israel regressa a Betel certamente mais rico do que quando lá tinha passado pela primeira vez: tem agora uma descendência numerosa, muitos bens, está reconciliado com Esaú; sobretudo tem um nome novo e a grande bênção do Jaboque. Surge então o seu reconhecimento pelas bênçãos recebidas ao longo de mais de vinte anos em que seguiu aquela primeira voz: “vamos sair daqui e dirigir-nos para Betel. Quero construir lá um altar ao Deus que me ajudou, quando eu estava em aflição, e que sempre me acompanhou por onde tenho andado” (35,3). A gratidão, qualquer verdadeira gratidão, é expressão de gratuidade  (têm a mesma raíz grega, charis). A mais preciosa é mesmo a gratidão que ‘se vira para trás’, não a que ‘olha para a frente’. Em muitos sentimentos e paixões humanos não é bom olhar para trás (como no caso da mulher de Lot que tê-lo feito foi transformada numa coluna de sal: 19,26). A gratidão é a exceção desta regra; é mais genuina e eficaz quando nasce de olhar de novo para trás, sem preocupação pelo futuro. Pode-se agradecer com ofertas e ‘altares’, um cliente ou fornecedor; como bons empresários, olhando para a frente, sabemos bem que agradecer é um ótimo investimento para o bom andamento das relações comerciais. Não há mal nenhum nisso, pelo contrário. Mas é diferente – mais elevado e mais puro – o agradecimento de quem o pronuncia como se o mundo terminasse com aquele ‘obrigado’. Esta gratidão que olha para trás é toda graça-gratuidade; por isso vale muitíssimo: a sua única razão de ser está toda ela no próprio relacionamento. Vivem-na, por exemplo, os que praticam a arte de ‘fechar os círculos dos relacionamentos’: após um encontro ou um evento (que não terá seguimento) escrevem às pessoas simplesmente para agradecer. Pela mesma razão a gratidão maior é a que se exprime para com os pobres e os pequenos, não para com os poderosos (que acham que nunca recebem agradecimentos bastantes). Pensando bem, é esta gratidão, sobretudo, que exprimimos quando vamos ao funeral de um amigo ou às bodas de ouro dos nossos pais. É a gratidão que exprimimos aos colegas nas festas de despedida quando se reformam (bastaria esta dimensão para as valorizar, nas empresas); mas também para com artistas e filósofos de outros tempos, ou os santos (a santidade pode também ser lida como grande expressão de gratidão coletiva: olhando para o que foi a vida de uma pessoa, todos são ajudados a olhar para a frente e para o alto). É esta a gratidão que declaramos – e reciprocamente nos declaramos – à nossa esposa no leito de morte, quando num instante e num ponto se concentram as dores e a beleza do universo. Esta ‘gratidão que olha para trás’ não informa todos os agradecimentos importantes da nossa vida; mas quando ela falta também os outros agradecimentos perdem profundidade e valor.

O regresso a Betel recorda ainda que, ao longo do caminho de uma vocação individual ou coletiva autêntica, é preciso de vez em quando repetir a ‘peregrinação de Jacob/Jacó’; pôr-se de novo a caminho para o lugar da primeira vocação. Tais peregrinações são sempre úteis, mas são indispensáveis para pessoas e comunidades nascidas da escuta de uma ‘voz’ e que acreditaram numa ‘promessa’; incluindo aquele especial tipo de comunidade que são as empresas. Repetir a ‘peregrinação’ de Jacob/Jacó é preciosíssimo em momentos de crise, quando se viveu um conflito ou uma ‘guerra’ recente. Partir em direção a um ‘altar’ torna-se um bom e eficaz meio para recomeçar, para reencontrar os fundamentos éticos e espirituais de um relacionamento, de uma comunidade, de nós mesmos. Partir juntos, recolhendo antes ou pelo caminho os motivos para agradecer e nos agradecermos. Depois da sua triste história Dina desaparece da Bíblia. Mas Dina está ainda viva em tantas mulheres, jovens e meninas (e meninos) raptadas e violentadas, ontem, hoje, amanhã, na Itália, na Índia, por todo o lado. Se a Bíblia quis apresentar-nos a única filha dos três patriarcas como uma menina raptada e abusada, é porque também esta dor absurda é vista por Deus, que continua a sofrer sempre que alguma das irmãs de Dina verte as mesmas lágrimas que para sempre recolhe no seu “odre” (Salmo 51). “Jacob/Jacó chegou com todos os seus ... a Betel. Lá edificou um altar” (35,6).

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