À escuta da vida

Spighe di grano rid modNesta categoria estão disponíveis todos os artigos de Luigino Bruni da série "À escuta da vida". São os comentários do livro de Isaías publicados no Avvenire.

 

Palavras para o tempo de todos

À escuta da vida / 29 – O profeta é mestre da luz porque conhece a noite

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 08/01/2017

Lago Albano rid«A maré humana, quebrando-se aos pés da torre, continuamente lambida pela sua miséria, continua a repetir a sua pergunta: shomèr ma-millàilah? ‘Quanto falta para o dia?’. O tom do oráculo é desconcertante pela sua inaudita cortesia: ‘se vos agrada perguntar, perguntai, voltai…’. Não importa saber. O que importa, o que faz viver, é que não percamos a angélica trepidação, a necessidade, a vontade de saber em que ponto vai ou quanto falta à noite ou o que significa a noite. O pior dos infortúnios é que acabem o vir e o perguntar».

Guido Ceronetti, "Il libro del profeta Isaia"

Nenhuma época conheceu uma produção e uma multiplicação de palavras como a nossa. As culturas antigas, rurais e analfabetas, também porque não sabiam escrever nem ler, porque conheciam poucas palavras, intuíam que a palavra, as palavras, continham em si um misterioso poder, respeitavam-no e temiam-no. Não sabiam nem ler nem escrever, mas sabiam falar. Não sabiam escrever poesias, mas sabiam-nas contar, sabiam-nas viver. O nosso tempo, porque inundado pelas palavras, perdeu o sentido da palavra, não tem instrumentos para reconhecer os profetas e confunde-os com os criadores e vendedores de tagarelices. Para reconhecer e compreender os profetas – e só Deus sabe quanta necessidade temos deles – deveremos simplesmente reaprender a falar.

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Quem já não grita, perde Deus

À escuta da vida / 28 – O bom, que resiste, dá raízes ao futuro e salva a todos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 31/12/2016

jacob y el angel 299x300«Se encontrares no caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pássaros com filhotes, ou ovos cobertos pela mãe, não apanharás a mãe com a ninhada; deixarás fugir a mãe e só poderás ficar com os filhotes para ti, de modo que possas ser feliz» (Dt 22, 6-7) – é a mesma promessa feita a quem “honra pai e mãe”. Conta-se que Rabi Elishà ben Avujà, uma vez, viu um homem subir a uma palmeira, ao sábado, e apanhar do ninho a mãe com os filhotes. E vê-o descer ileso. Pelo contrário, um outro homem, depois do sábado, subiu à palmeira, apanha os filhotes e deixou fugir a mãe. Desce, é mordido por uma serpente e morre. Disse Elishà: «Não há justiça: não há Juiz». E abjurou. E como fez Elishà para mostrar que tinha perdido a fé? Não construiu uma filosofia ateia: num dia de sábado, arrancou um tufo de erva.

Paolo de Benedetti, "Uomini e profeti", Radio3

Uma alma profunda da cultura do Ocidente é o resultado do encontro e da tensão vital entre o humanismo grego e o bíblico. Entre o génio filosófico dos gregos, indagador da verdade numa liberdade absoluta e liberto de qualquer referência ao passado, à tradição ou a textos sagrados e o ethos bíblico, mais orientado à via que à verdade, que olha em frente, mas não é livre nem liberto da ligação ao início, porque ancorado num primeiro Pacto e numa promessa imprescindíveis.

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Outros anjos sobre a mesma gruta

À escuta da vida / 27 – A espera é a condição normal da vida boa

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 24/12/2016

Notte stellata Corea rid“Se nós consentirmos, Deus deposita em nós uma pequena semente e vai-se embora. A partir daquele momento, Deus não tem mais nada a fazer, e nós também não, a não ser esperar. Devemos apenas não lamentar o consentimento que demos, o sim nupcial. Não é tão fácil como parece, porque o crescimento da semente, em nós, é doloroso”

Simone Weil, "Attesa di Dio"  [Espera de Deus]

A espera é a condição normal da vida boa. Todos os anos, revivemos o Advento, porque embora sabendo que aquele menino já veio, sabemos também que deve regressar. O povo de Israel acreditava e sabia que Abraão tinha encontrado o Senhor, que tinha aparecido aos patriarcas, a Agar. Moisés falava com ele cara a cara, e todos os profetas tinham conhecido a voz, visto o céu e os anjos. Todavia, continuavam a esperar o Emanuel, o Deus connosco, que já tinha vindo e que devia voltar.

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Abençoado o tempo desencantado

À escuta da vida/26 – A cada casa e a cada comunidade é útil ar novo

por  Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 18/12/2016

Albero bucato rid“Ai de mim; o que são, por vezes, as nossas ideias! Apenas a nossa máscara. Posso exprimir ideias generosíssimas, imaginemos, sobre a condição dos pobres; e as minhas ideias são generosas: no entanto, tenho uma casa rica e bonita, e os pobres apenas os vejo na rua. Qual é o meu amor, neste caso? Pela pobreza e pelos pobres? Não, certamente: caso contrário, estaria entre eles, seria um deles: as minhas ideias são para a pobreza, mas o meu amor é pela minha casa”

Giuseppe de Luca, "Introduzione alla storia della pietà"

Toda a comunidade vive da tensão vital entre o interior e o exterior. Entre a exigência de preservar a identidade própria e a necessidade de acolher quem bate à porta. Abrir para deixar entrar ar fresco que vivifique a casa, fechar para reter o calor criado pela intimidade das relações entre os habitantes. Geralmente, é o medo de perder o bom calor que prevalece, e as comunidades transformam-se, progressivamente, em clubes privados de iguais que consomem bens relacionais entre si, dentro de cercas protetoras que, com o tempo, se tornam verdadeiros muros.

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O necessário é demasiado pouco

À escuta da vida / 25 – Aprender a viver o tempo do amadurecimento da semente

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 11/12/2016

pescador“Procuro a palavra. / A nossa língua é impotente, /os seus sons repentinos – pobres. / Procuro com o esforço da mente / procuro esta palavra – mas não consigo encontra-la. / Não consigo”

Wislawa Szymborska, "Cerco la parola"   [Procuro a palavra]

Escondido no coração da humanidade está sempre o desejo profundo de uma terra da gratuidade. Uma terra onde todo o homem, toda a mulher, todo o pobre tenha pão, água, leite, mel, sem que o acesso a estes bens fundamentais de vida seja medido pela posse do dinheiro. Porque sabemos, sentimos, que mais profundo que a lei do dar e do ter moeda e da finança, há um laço de fraternidade mais verdadeiro do que as desigualdades económicas e sociais, que nos chama e espera que o descubramos e reconheçamos.

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As feridas fecundas do parto

À escuta da vida / 24 – A novidade compreendida pelo “homem das dores” gera alegria

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 04/12/2016

Pietà postmoderna rid“Canto o homem que morreu, não o Deus que ressuscitou. Canto o homem enlameado, não o Deus que foi lavado. Canto o homem louco, não o Deus sensato”

Roberto Roversi e Lucio Dalla

Os cânticos do servo são o vértice do livro de Isaías e um dos trechos mais altos da literatura espiritual de todos os tempos. É um texto profético e poético admirável, capaz de conter as esperas e as esperanças da história que o precedeu e de prefigurar um homem e um Deus que ainda não existiam. Palavras improváveis, versículos que ninguém ainda tinha escrito, que não podiam ser escritas. No entanto, temo-los.

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Chamados a montar tendas

À escuta da vida / 23 – Para lá dos fracassos, «segundo dia» de qualquer vocação

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 27/11/2016

Maschere Corea“Terminado o Evangelho segundo Marcos, Espinosa preparou-se para ler um outro dos três evangelhos restantes; o pai dos Gutre pediu-lhe para repetir o que já tinha lido, para o compreender bem. … No dia seguinte, o pai falou com Espinosa e perguntou-lhe se Cristo se deixou matar para salvar todos os homens. Espinosa respondeu-lhe: «Sim. Para salvar todos do inferno.»… O pai e os dois filhos tinham seguido Espinosa. Ajoelharam no chão de pedra e pediram-lhe a bênção. Depois amaldiçoaram-no, cuspiram-lhe e empurraram-no até ao fundo do pátio. O barracão não tinha teto; tinham tirado as traves para construir a Cruz.”

J.L. Borges, "Il vangelo secondo Marco"

As nossas palavras mais importantes têm a capacidade de se tornarem história, carne, de se incarnarem na nossa vida.

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A maldição dos recursos

À escuta da vida / 22 – Cega-nos reduzir os profetas a «profissionais do império»

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 20/11/2016

Albero Seoul rid“Porquê os poetas em tempos de pobreza?”.

Friedrich Hölderlin, "Pane e vino"

“Corre, portanto, aos teus encantamentos e à multidão das tuas bruxarias, a que te entregaste desde a juventude! Vê lá se podem servir para esconjurares a desgraça. Apresentem-se agora e salvem-te os que conjuram o céu, os que observam os astros, e os que prognosticam cada mês o que vai acontecer… Deste modo, terminaram os teus adivinhos, com quem traficavas desde a juventude. Cada qual foge para onde pode, e nenhum deles te salva” (Isaías 47, 12-15).

O Segundo Isaías, neste belíssimo capítulo de profecia poética, anuncia a destruição de Babilónia. A sua soberba e o seu imperialismo (“Dizias a ti mesma: «Eu e mais ninguém!»”: 47, 8) estavam a conduzi-la à ruina. Na raiz deste iminente desmoronamento não está apenas a hybris típica de todos os impérios, nem apenas a idolatria que, nos capítulos precedentes, o profeta tinha colocado no centro da sua disputa.

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E que nunca alguém toque em Adão

À escuta da vida / 21 – Não se pode ser ciumento do nome e da presença de Deus

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 13/11/2016

Porta Appia Antica rid“Uma vez Baalschem invocou Sammael, o senhor dos demónios, para uma coisa necessária. Este gritou-lhe: ‘Como ousas invocar-me? Até agora, só me aconteceu três vezes: na hora da árvore, na hora do bezerro, na hora da destruição do templo. Baalschem ordenou aos discípulos para descobrir as cabeças. Então, Sammael viu, em cada fronte, o sinal da imagem, segundo a qual Deus cria o homem e fez o que lhe era pedido. Mas, antes de ir embora, disse: ‘Filhos do Deus vivo, permiti-me ficar ainda um pouco convosco, a contemplar as vossas frontes”.

Martin Buber, "Storie e leggende cassidiche"  [Histórias e lendas chassídicas]

O Ulisses de Homero e o de Dante dizem, ambos, a vocação e o destino do homem ocidental. Chamamento invencível da terra e da casa e, ao mesmo tempo, necessidade também invencível de repartir para novos mares desconhecidos. O mar a sulcar para voltar a casa, o mesmo mar que seduz e chama para novas partidas.

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As consolações da profecia

À escuta da vida / 20 – Fiéis ao povo e a Deus, mesmo quando parece vencido

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 06/11/2016

Fiore cigno rid“Não sou meu contemporâneo; nenhum poeta o é. Sou vosso contemporâneo; todo o poeta o é”

Giovanni Casoli, "Tutto è intimo"

Nahamù nahamù ‘ammì: «Consolai, consolai o meu povo» (Isaías 40, 1). Com estas palavras, começa a segunda parte do livro de Isaías. Uma obra de um autor anónimo, que se reconhece na escola do primeiro Isaías e que a tradição bíblica quis inserir com o mesmo título. Um autor diferente, que viveu cerca de dois séculos depois do primeiro profeta ‘filho de Amos’, mas não inferior ao primeiro por força profética e poética.

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Este é o lugar de Deus

À escuta da vida / 19 – É no mundo que se manifesta e aqui o encontramos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 30/10/2016

Albero statua crop rid“Talvez um vestígio do rosto crucificado se esconda em cada espelho: talvez o rosto morreu, se apagou, para que Deus seja todos. Quem sabe se esta noite não o veremos nos labirintos do sonho e amanhã não o saberemos”

J. L. Borges, "L’artefice" [O artesão]

O valor da vida dos profetas não está na nossa capacidade de a imitar. São os falsos profetas que se apresentam como modelos a imitar; mas os profetas verdadeiros sabem que, se se mostram a si mesmos como a realização ética das palavras que anunciam, acabam por se tornar ídolos e, assim, obscurecer, como num eclipse, o seu ideal. Os profetas são preciosos se e enquanto inimitáveis e diferentes de nós. Isaías não salvou o seu povo através da imitação dos seus discípulos que, se se tivessem limitado a isso, teriam apenas redimensionado a sua mensagem a traído a sua memória. Os sinais e os gestos proféticos são poderosíssimos quando realizados pelos profetas, mas tornam-se paródias ou comédias quando os fazemos nós, para os imitar.

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Longe do ídolo insaciável

À escuta da vida / 18 – O consumismo impõe templos cheios de mercadorias e vazios de vida

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 23/10/2016

Abbraccio rid“Sem a fé, os nossos filhos nunca serão ricos; com a fé, nunca serão pobres”.

Beato Giuseppe Tovini, banqueiro

A fé bíblica é libertação. A aliança com YHWH foi, sobretudo, o grande caminho para fugir da escravidão dos impérios. Está aqui muito da capacidade inovadora e revolucionária da Bíblia: aceitar aliar-se com um Deus altíssimo, invisível, impronunciável, totalmente espiritual, foi o caminho para não se tornar súbditos de reis e faraós muito visíveis, materiais, pronunciáveis e pronunciados. Escravos de soberanos, com nomes ditos e repetidos em cada ângulo do reino, cuja imagem era reproduzida em muitas estátuas que desenhavam a paisagem do seu reino.

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A liberdade das mãos livres

À escuta da vida / 17 – A verdadeira natureza do dom é mestiça e subversiva, diferente de filantropia

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 16/10/2016

Spiaggia Recife 01 rid“Em todas as sociedades, a natureza peculiar do dom é a de obrigar”.

Marcel Mauss, "Saggio sul dono"

A função mais preciosa dos profetas não é a denúncia do mal que já nos aparece como mal, mas desmascarar os vícios que existem naquilo a que chamamos virtudes. É fácil compreender Isaías e solidarizar-se com ele quando critica a injustiça e os delitos dos poderosos; muito mais difícil é compreendê-lo a amá-lo quando critica as ofertas. Foi difícil no seu tempo, ainda mais difícil no nosso, quando sacrificámos os dons ao negócio dos presentes: “Qual de nós poderá permanecer neste fogo devorador? Qual de nós poderá habitar nesta fogueira sem fim?» Aquele que anda na justiça e fala a verdade, que recusa benefícios extorquidos pela violência, cuja mão rejeita o suborno” (Isaías 33, 14-15).

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A «Laudato si’» do profeta

À escuta da vida / 16 – Endireitar costas, libertar escravos, conduzir máquinas

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 09/10/2016

Lago Albano rid“A inspiração. Não é fácil explicar a alguém algo que nós próprios não compreendemos. Também eu, por vezes, perante esta pergunta, fujo à substância do assunto. Mas respondo assim: a inspiração não é um privilégio exclusivo dos poetas e dos artistas em geral. Há, houve e sempre haverá um grupo de indivíduos visitados pela inspiração”.

Wislawa Szymborska, Nobel da literatura, 1996

A ilusão de a salvação vir dos poderosos, dos faraós, dos impérios, foi sempre uma tentação radical e fortíssima dos povos, das comunidades, de cada um de nós. Quando a angústia cresce e o desencorajamento nos faz a corte, quando o desespero que está a chegar projeta a sua sombra cada vez maior nos nossos dias e começamos a preferir a noite para não ver aquela sombra ameaçadora, chega, pontualmente, a tentação, com insistência crescente, de procurar um poderoso a quem mendigar a nossa salvação.

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O sucesso é um deus minúsculo

À escuta da vida / 15 – Loja de ilusões: a maldição dos profetas rufias

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 02/10/2016

Tronco rid

“Sim; na verdade, só as pedras podem viver sem este impulso interior. Tudo o resto, todo o ser vivo, só pode existir sob a marca da Esperança”.

Susanna Tamaro, 'La tigre e l’acrobata'

O interesse mútuo é a regra de ouro da economia e de muita vida civil. A riqueza económica, ética e social das nações cresce se as pessoas criam sempre novos relacionamentos para uns satisfazerem as necessidades dos outros. Existem, porém, sectores e momentos da vida que só são bons se, e até quando, não satisfazem os nossos gostos nem as nossas necessidades, porque se o fazem, contentam-nos, mas não nos fazem felizes nem nos fazem bem. Quando, por exemplo, nalguns momentos cruciais não dizemos aos outros as coisas que nos pedem ou as palavras que querem ouvir, porque devemos dar-lhes coisas e palavras que não os contentam, porque incómodas; ou quando nos conseguimos aguentar na ‘separação’ entre as coisas que pedíamos aos profetas não falsos e as palavras diferentes que eles nos dão, deixando-nos incomodados e insatisfeitos, sem nos dirigirmos ao florescente mercado dos falsos profetas, onde encontramos tudo e exatamente quanto pedimos, mas nada mais.

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Quem acredita, saberá esperar

À escuta da vida / 14 - É uma promessa que mantém todo o mundo de pé

por Luigino Bruni

publicado na Revista Avvenire no dia 25/09/2016

Anna Caravella rid 300A morte é, para nós, ao mesmo tempo, uma experiência-limite e uma experiência do limite: um acontecimento extraordinário que, precisamente pela sua excecionalidade, coloca-nos diante da nossa radical finidade. … A situação da sobrevivência é a situação central do poder”.

Elias Canetti, Potere e sopravvivenza

A promessa da Bíblia é sempre difícil de compreender e de acolher, porque muito diferente da dos falsos profetas, diversíssima das promessas dos ídolos e das ideologias. Foi traída muitas vezes pelo povo, pelos seus reis, pelo templo. Mas foi mantida viva e alimentada pelos profetas, guardada por um “resto” que, em certos momentos históricos, se tornou minúsculo, um pequeno rebento que nasce e renasce dum tronco cortado, que parecia morto para sempre.

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Pais do vento e da aurora

À escuta da vida / 13 – No filho, e em cada filho, a vitória sobre a morte

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 18/09/2016

Portatore di pane Lovanio rid“Não existe profecia que não seja apocalíptica, a começar pelo livro de Isaías. Os oráculos dos profetas são transbordantes de futuro e de um futuro que é, inseparavelmente, apocalíptico e messiânico. Se a profecia aparece quando o povo está no fundo do abismo, é porque não há criação sem caos”

Sergio Quinzio, 'Un commento della Bibbia'

Os profetas nunca são meigos com o dinheiro. Conhecemos bem o seu fascínio e a sua capacidade de seduzir o coração do homem, porque se apresenta como ídolo que promete saciar a nossa sede de segurança e a nossa necessidade de salvação e que, como todos os ídolos, pede-nos tudo em troca. Também Isaías, no fim dos seus oráculos sobre as nações, antes de nos introduzir no seu Apocalipse-revelação, apresenta-nos palavras admiráveis acerca do dinheiro. A destruição de Tiro, imagem do poder comercial fenício, é descrita com a metáfora da prostituta, já não jovem, que gira nas praças à procura de novos clientes: «Pega na cítara e percorre a cidade, ó prostituta esquecida; toca com perfeição, e canta sem parar, para que se lembrem de ti» (Isaías 23, 16).

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Na noite e até à aurora

À escuta da vida / 12

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 11/09/2016

Alba rid“Não esqueçais nunca que, até ao dia em que Deus se dignará revelar ao homem os segredos do futuro, toda a sabedoria mais elevada de um homem consistirá nestas duas palavras: esperar e aguardar”.

A. Dumas, 'Il conte di Montecristo'

Para falar, não bastam as palavras da boca e, por vezes, não servem. Falamos também com as palavras do corpo, com gestos que, por vezes, são mais fortes, claros, universais, radicais que as ditas ou escritas. Estas palavras diferentes, por vezes, precedem as da boca, outras vezes seguem-nos e explicam o que as palavras ditas não conseguem dizer. Por vezes, as únicas palavras que temos à disposição para falar, ou as únicas que podemos compreender, são as das nossas mãos, acompanhadas ou seguidas pelas do corpo, porque as palavras desencarnadas não sabem dizer palavras de vida.

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Profecia de bolo de uvas

À escuta da vida / 11 – Sem a beleza do trabalho em conjunto, o tempo é pobre

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire a 04/09/2016

Vigna Isaia rid“… O profeta não esconde: o uso de uma linguagem simbólica é também o seu modo de tirar o véu”

Guido Ceronetti, Il libro del profeta Isaia

Saber rezar é um capital pessoal e civil de grande valor, é uma capacidade fundamental da pessoa humana, a primeira oportunidade que nos é dada quando nos tornamos conscientes de estar mergulhados num mistério, o da vida. É um recurso moral sempre preciosíssimo, mas que se torna essencial quando atravessamos as longas noites de insónia, as destruições, os desertos. Quem aprendeu a arte de rezar – dos pais, dos avós, da grande dor –, e soube guardá-la ao tornar-se adulto, encontra-se com um património de rendimentos altíssimos e crescentes no tempo (é importante saber rezar desde criança, é crucial saber fazê-lo quando velhos, quando a inocência das primeiras orações já não existe e deve voltar). Quem esqueceu como se reza, quem está a lutar para não esquecer a última oração que aprendeu quando criança, quem nunca soube nem quis rezar e, um dia, sentiu o desejo de o fazer, pode começar com Isaías.

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A fraternidade do Sábado Santo

À escuta da vida / 10 – Deus sofre connosco e a Sua palavra é sal na terra ignorante

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 28/08/2016

Isaia lamentazioni rid““… Ainda este não acabara de falar, e eis que entrou outro e disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho na casa do irmão mais velho quando, de repente, um furacão se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens. Morreram todos». Então, Job levantou-se, rasgou as vestes e rapou a cabeça. Depois, prostrado por terra em adoração, disse: «Saí nu do ventre da minha mãe e nu voltarei para lá»”.  (Jó 1, 18-21).

«Oráculo contra Moab: “Na noite em que atacaram Ar, Moab foi destruída; na noite em que atacaram Quir, Moab foi destruída. O povo de Dibon subiu ao templo e aos lugares sagrados para chorar; Moab está gemendo por Nebo e por Madabá, com as cabeças rapadas e as barbas cortadas. Andam pelas ruas vestidos de luto, pelos terraços e pelas praças, todos se lamentam desfeitos em pranto, … soltam gemidos de aflição. O seu pranto ecoou por todo o seu território» (Isaías 15, 1-8).

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O dia dos filhos e das filhas

À escuta da vida / 9 - A abençoada certeza de termos de novo uma terra

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 21/08/2016

Cardo indaco rid

“Escuta: se todos têm de sofrer para comprar, com o sofrimento, a harmonia eterna, onde entram aqui as crianças? Responde-me, por favor”

Fedor Dostoevskij, Os irmãos Karamazov

A gratidão é a primeira regra da gramática social. Quando é respeitada e praticada, há mais alegria em viver, os laços apertam-se, os escritórios e as fábricas humanizam-se, todos nos tornamos mas belos. Mas, no coração humano, não há apenas o desejo profundo de ser agradecidos, vistos, reconhecidos pelo que somos e por quanto fazemos. Reside ali também uma outra necessidade profundíssima: a de agradecer. Sofremos muito quando não recebemos reconhecimento; mas sofremos diversamente – e não menos – se e quando não temos ninguém a quem agradecer.

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Para lá da escassez de promessas

À escuta da vida / 8 – Nunca se aprisionar num grande início incompleto

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 14/08/2016

Virgulto roccia rid“Esta é a língua dos profetas, para os quais o futuro não está em lado nenhum, pois é o que ainda está em formação. Faz-nos experimentar a história como algo de que fomos participantes. Isto já e isto ainda, isto já não, isto ainda não: são estes os grandes pêndulos no relógio da história universal”

Franz Rosenzweig, Bíblia hebraica

A verdade da profecia não se mede com base na aproximação das palavras do profeta à realidade futura mas, paradoxalmente, com base na distância. As falsas profecias é que procuram prever a realidade e, assim, atualizam continuamente a sua palavra para a fazer coincidir com os fatos.

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O engano dos fogos fátuos

À escuta da vida / 7 – Desafiar e resistir ao escuro, não confundir aurora com ocaso

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 07/08/2016

Spighe di grano rid

“As heresias que devemos temer são as que se podem confundir com a ortodoxia”

Jorge Luis Borges, L’Aleph

O profeta não é apenas um libertador de homens, de mulheres, de escravos, de pobres. É também, e talvez sobretudo, um libertador de Deus. As religiões e as ideologias têm, por sua natureza, a tendência para prender Deus nas suas gaiolas, para construir tendas e templos onde o obrigam a entrar e, depois, enclausuram-no. Elaboram teologias e filosofias onde Deus não pode fazer mais que obedecer às leis que preparámos para ele, sem surpreender ninguém.

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O nome do filho-esperança

À escuta da vida / 6 – Acreditar no regresso, em tempos de dificuldade e de exílio

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 31/07/2016

Spighe di grano rid

“Assaradon, rei das terras, não temas! Eu sou Ishtar de Arbela.
Espero entregar os teus inimigos nas tuas mãos. Eu sou Ishtar de Arbela. Caminho à tua frente e atrás de ti. Não temas.”

Oracolo cuneiforme babilonese, VII sec. a.c.

Os profetas são homens e mulheres do insucesso. A sua palavra e a sua existência dão-nos um mapa ético e espiritual na hora do fracasso. Recordam-nos que o insucesso é a nossa condição normal. As vitórias que alcançamos são sempre muito pequenas e passageiras. Nós tendemos a consolar-nos com metas alcançadas, a redimensionar as perguntas e os ideais para os acomodar dentro dos confins do nosso limite. E, assim, deixamos de crescer e de fazer crescer o mundo.

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Nenhum profeta é para sempre

À escuta da vida / 5 – Chamados a guardar a boa semente, nunca como donos

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 24/07/2016

Spighe di grano rid“Muitas vezes, Deus dando-te, te nega; e negando-te, dá-te”

Ibn Atà, Antologia della mistica arabo-persiana

«No ano em que morreu o rei Ozias, vi o Senhor sentado num trono alto e elevado... Os serafins estavam diante dele, cada um tinha seis asas… Então disse: «Ai de mim, estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, que habita no meio de um povo de lábios impuros, e vi com os meus olhos o Rei, Senhor do universo!» (6, 1-5).

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Como lanternas à espera (A vinha somos nós)

À escuta da vida / 4 – Não Deus, mas os ídolos têm necessidade de espaços murados e fechados

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire  no dia 17/07/2016

Spighe di grano rid

“Se Moisés, ou Jeremias, ou Jesus, tivessem pensado que a sua mensagem pudesse vir a ser entendida como um discurso edificante a fazer num lugar sagrado, ou a meditar num tempo sagrado, ou num espaço interior, isolado do resto da vida, ficariam espantados e indignados. Nem para Moisés, nem para os profetas nem para Jesus, as suas palavras eram destinadas a um lado religioso da vida, porque este lado não existia”

Paolo De Benedetti, La morte di Mosè e altri esempi

«Vou cantar em nome do meu amigo o cântico do seu amor pela sua vinha: Sobre uma fértil colina, o meu amigo possuía uma vinha. Cavou-a, tirou-lhe as pedras, e plantou-a de bacelo escolhido. Edificou-lhe uma torre de vigia, e nela construiu um lagar. Depois esperou que lhe desse boas uvas, mas ela só produziu agraços» (5, 1-2). Esta vinha pervertida somos nós, é a nossa natureza humana que não produz os frutos que poderia e deveria dar. Passaram mais de dois milénios e meio após estas palavras terem sido escritas, mas o espetáculo da vinha rebelde, estragada e podre, continua a encher o horizonte debaixo do sol. Teremos todas as condições para produzir boas uvas mas, pelo contrário, continuamos a produzir agraços. A mesma uva ruim de Caim, de Lamec, de Jesabel. Em Sodoma, em Dacca, em Nice, em Istambul.

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As palavras que reconstroem

À escuta da vida / 3 – Sons e cores do canto e nas lágrimas dos profetas

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire  no dia 10/07/2016

Spighe di grano rid“Segóvia dizia que o intérprete, em relação ao trecho musical, é como Jesus que ressuscita Lázaro: também o intérprete faz voltar à vida. Se não o faço reviver, o trecho permanece como morto”

Piero Bonaguri, Ensinamento segoviano.

A autêntica experiência religiosa é um dom para todos, mesmo para quem não tem fé ou tem uma fé diferente. Fora deste dom gratuito, há apenas barbárie, idolatria, auto-engano, consumismo emotivo, busca de poder e de dinheiro. Neste nosso tempo, de profunda crise das religiões e das fés, devemos voltar a falar bem do espírito religioso, a dizer boas palavras acerca dele, a bem-dizê-lo.

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