À escuta da vida

Nesta categoria estão disponíveis todos os artigos de Luigino Bruni da série "À escuta da vida". São os comentários do livro de Isaías publicados no Avvenire.

Quem acredita, saberá esperar

À escuta da vida / 14 - É uma promessa que mantém todo o mundo de pé

por Luigino Bruni

publicado na Revista Avvenire no dia 25/09/2016

Anna Caravella rid 300A morte é, para nós, ao mesmo tempo, uma experiência-limite e uma experiência do limite: um acontecimento extraordinário que, precisamente pela sua excecionalidade, coloca-nos diante da nossa radical finidade. … A situação da sobrevivência é a situação central do poder”.

Elias Canetti, Potere e sopravvivenza

A promessa da Bíblia é sempre difícil de compreender e de acolher, porque muito diferente da dos falsos profetas, diversíssima das promessas dos ídolos e das ideologias. Foi traída muitas vezes pelo povo, pelos seus reis, pelo templo. Mas foi mantida viva e alimentada pelos profetas, guardada por um “resto” que, em certos momentos históricos, se tornou minúsculo, um pequeno rebento que nasce e renasce dum tronco cortado, que parecia morto para sempre.

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Profecia de bolo de uvas

À escuta da vida / 11 – Sem a beleza do trabalho em conjunto, o tempo é pobre

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire a 04/09/2016

Vigna Isaia rid“… O profeta não esconde: o uso de uma linguagem simbólica é também o seu modo de tirar o véu”

Guido Ceronetti, Il libro del profeta Isaia

Saber rezar é um capital pessoal e civil de grande valor, é uma capacidade fundamental da pessoa humana, a primeira oportunidade que nos é dada quando nos tornamos conscientes de estar mergulhados num mistério, o da vida. É um recurso moral sempre preciosíssimo, mas que se torna essencial quando atravessamos as longas noites de insónia, as destruições, os desertos. Quem aprendeu a arte de rezar – dos pais, dos avós, da grande dor –, e soube guardá-la ao tornar-se adulto, encontra-se com um património de rendimentos altíssimos e crescentes no tempo (é importante saber rezar desde criança, é crucial saber fazê-lo quando velhos, quando a inocência das primeiras orações já não existe e deve voltar). Quem esqueceu como se reza, quem está a lutar para não esquecer a última oração que aprendeu quando criança, quem nunca soube nem quis rezar e, um dia, sentiu o desejo de o fazer, pode começar com Isaías.

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A fraternidade do Sábado Santo

À escuta da vida / 10 – Deus sofre connosco e a Sua palavra é sal na terra ignorantedi Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 28/08/2016

Isaia lamentazioni rid““… Ainda este não acabara de falar, e eis que entrou outro e disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho na casa do irmão mais velho quando, de repente, um furacão se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens. Morreram todos». Então, Job levantou-se, rasgou as vestes e rapou a cabeça. Depois, prostrado por terra em adoração, disse: «Saí nu do ventre da minha mãe e nu voltarei para lá»”.  (Jó 1, 18-21).

«Oráculo contra Moab: “Na noite em que atacaram Ar, Moab foi destruída; na noite em que atacaram Quir, Moab foi destruída. O povo de Dibon subiu ao templo e aos lugares sagrados para chorar; Moab está gemendo por Nebo e por Madabá, com as cabeças rapadas e as barbas cortadas. Andam pelas ruas vestidos de luto, pelos terraços e pelas praças, todos se lamentam desfeitos em pranto, … soltam gemidos de aflição. O seu pranto ecoou por todo o seu território» (Isaías 15, 1-8).

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O dia dos filhos e das filhas

À escuta da vida / 9 – A abençoada certeza de termos de novo uma terra

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 21/08/2016

Cardo indaco rid

“Escuta: se todos têm de sofrer para comprar, com o sofrimento, a harmonia eterna, onde entram aqui as crianças? Responde-me, por favor”

Fedor Dostoevskij, Os irmãos Karamazov

A gratidão é a primeira regra da gramática social. Quando é respeitada e praticada, há mais alegria em viver, os laços apertam-se, os escritórios e as fábricas humanizam-se, todos nos tornamos mas belos. Mas, no coração humano, não há apenas o desejo profundo de ser agradecidos, vistos, reconhecidos pelo que somos e por quanto fazemos. Reside ali também uma outra necessidade profundíssima: a de agradecer. Sofremos muito quando não recebemos reconhecimento; mas sofremos diversamente – e não menos – se e quando não temos ninguém a quem agradecer.

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Para lá da escassez de promessas

À escuta da vida / 8 – Nunca se aprisionar num grande início incompleto

di Luigino Bruni

pubblicato su Avvenire il 14/08/2016

Virgulto roccia rid“Esta é a língua dos profetas, para os quais o futuro não está em lado nenhum, pois é o que ainda está em formação. Faz-nos experimentar a história como algo de que fomos participantes. Isto já e isto ainda, isto já não, isto ainda não: são estes os grandes pêndulos no relógio da história universal”

Franz Rosenzweig, Bíblia hebraica

A verdade da profecia não se mede com base na aproximação das palavras do profeta à realidade futura mas, paradoxalmente, com base na distância. As falsas profecias é que procuram prever a realidade e, assim, atualizam continuamente a sua palavra para a fazer coincidir com os fatos.

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O engano dos fogos fátuos

À escuta da vida / 7 – Desafiar e resistir ao escuro, não confundir aurora com ocaso

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 07/08/2016

Spighe di grano rid

“As heresias que devemos temer são as que se podem confundir com a ortodoxia”

Jorge Luis Borges, L’Aleph

O profeta não é apenas um libertador de homens, de mulheres, de escravos, de pobres. É também, e talvez sobretudo, um libertador de Deus. As religiões e as ideologias têm, por sua natureza, a tendência para prender Deus nas suas gaiolas, para construir tendas e templos onde o obrigam a entrar e, depois, enclausuram-no. Elaboram teologias e filosofias onde Deus não pode fazer mais que obedecer às leis que preparámos para ele, sem surpreender ninguém.

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O nome do filho-esperança

À escuta da vida / 6 – Acreditar no regresso, em tempos de dificuldade e de exílio

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 31/07/2016

Spighe di grano rid

“Assaradon, rei das terras, não temas! Eu sou Ishtar de Arbela.
Espero entregar os teus inimigos nas tuas mãos. Eu sou Ishtar de Arbela. Caminho à tua frente e atrás de ti. Não temas.”

Oracolo cuneiforme babilonese, VII sec. a.c.

Os profetas são homens e mulheres do insucesso. A sua palavra e a sua existência dão-nos um mapa ético e espiritual na hora do fracasso. Recordam-nos que o insucesso é a nossa condição normal. As vitórias que alcançamos são sempre muito pequenas e passageiras. Nós tendemos a consolar-nos com metas alcançadas, a redimensionar as perguntas e os ideais para os acomodar dentro dos confins do nosso limite. E, assim, deixamos de crescer e de fazer crescer o mundo.

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Nenhum profeta é para sempre

À escuta da vida / 5 – Chamados a guardar a boa semente, nunca como donos

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire no dia 24/07/2016

Spighe di grano rid“Muitas vezes, Deus dando-te, te nega; e negando-te, dá-te”

Ibn Atà, Antologia della mistica arabo-persiana

«No ano em que morreu o rei Ozias, vi o Senhor sentado num trono alto e elevado... Os serafins estavam diante dele, cada um tinha seis asas… Então disse: «Ai de mim, estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, que habita no meio de um povo de lábios impuros, e vi com os meus olhos o Rei, Senhor do universo!» (6, 1-5).

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Como lanternas à espera (A vinha somos nós)

À escuta da vida / 4 – Não Deus, mas os ídolos têm necessidade de espaços murados e fechados

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire  no dia 17/07/2016

Spighe di grano rid

“Se Moisés, ou Jeremias, ou Jesus, tivessem pensado que a sua mensagem pudesse vir a ser entendida como um discurso edificante a fazer num lugar sagrado, ou a meditar num tempo sagrado, ou num espaço interior, isolado do resto da vida, ficariam espantados e indignados. Nem para Moisés, nem para os profetas nem para Jesus, as suas palavras eram destinadas a um lado religioso da vida, porque este lado não existia”

Paolo De Benedetti, La morte di Mosè e altri esempi

«Vou cantar em nome do meu amigo o cântico do seu amor pela sua vinha: Sobre uma fértil colina, o meu amigo possuía uma vinha. Cavou-a, tirou-lhe as pedras, e plantou-a de bacelo escolhido. Edificou-lhe uma torre de vigia, e nela construiu um lagar. Depois esperou que lhe desse boas uvas, mas ela só produziu agraços» (5, 1-2). Esta vinha pervertida somos nós, é a nossa natureza humana que não produz os frutos que poderia e deveria dar. Passaram mais de dois milénios e meio após estas palavras terem sido escritas, mas o espetáculo da vinha rebelde, estragada e podre, continua a encher o horizonte debaixo do sol. Teremos todas as condições para produzir boas uvas mas, pelo contrário, continuamos a produzir agraços. A mesma uva ruim de Caim, de Lamec, de Jesabel. Em Sodoma, em Dacca, em Nice, em Istambul.

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As palavras que reconstroem

À escuta da vida / 3 – Sons e cores do canto e nas lágrimas dos profetas

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire  no dia 10/07/2016

Spighe di grano rid“Segóvia dizia que o intérprete, em relação ao trecho musical, é como Jesus que ressuscita Lázaro: também o intérprete faz voltar à vida. Se não o faço reviver, o trecho permanece como morto”

Piero Bonaguri, Ensinamento segoviano.

A autêntica experiência religiosa é um dom para todos, mesmo para quem não tem fé ou tem uma fé diferente. Fora deste dom gratuito, há apenas barbárie, idolatria, auto-engano, consumismo emotivo, busca de poder e de dinheiro. Neste nosso tempo, de profunda crise das religiões e das fés, devemos voltar a falar bem do espírito religioso, a dizer boas palavras acerca dele, a bem-dizê-lo.

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Deus e os pobres, sem álibi

À escuta da vida / 2 – Com Isaías, para além da culpa e dos sacrifícios rituais

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire  no dia 03/07/2016

Spighe di grano rid"“Não habitareis mais em conventos de pedra / Para que o coração não seja calhau! / E também vós, homens, não façais / Garras das vossas mãos. / Livres ou monges, voltai / Sem alforge, nus / Os pés sobre o asfalto. / Seja o mundo / o vosso mosteiro / Como outrora / Era a Europa”

David Maria Turoldo, O sensi miei… Poesie 1948-1988

A primeira estratégia adotada pelos poderosos para ignorar as razões do pobre foi – e continua a ser – pensar e dizer que ele é culpado, atribuir-lhe a culpa da sua pobreza. Isaías condena o povo e as suas elites, mas não condena os pobres. Numa cultura onde o pobre era também considerado culpado, os profetas (assim como Job) dizem exatamente o contrário: a dor dos pobres é a consequência das culpas dos chefes, da idolatria e da falsa religião dos reis e dos sacerdotes. Os pobres são vítimas da injustiça de um povo infiel, mas não são culpados.

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Guia nos tempos das ruínas

À escuta da vida / 1 – Isaías e as «primeiras palavras» para amar, acreditar e procurar

por Luigino Bruni

publicado no jornal Avvenire  no dia 26/06/2016

Spighe di grano ridDeus conquista a onipotência para consolar; da necessidade infinita de consolar nasce a vida eterna.

Sergio Quinzio, Um comentário sobre a Bíblia

O encontro com os profetas é uma etapa fundamental no caminho espiritual e moral da pessoa. Muitos vivem e morrem sem alcançar este encontro, como muitos homens e mulheres terminam a própria existência sem ter feito uma experiência de beleza perante uma obra de arte, sem ter lido uma poesia, sem ter sentido a tranquilidade do universo numa noite estrelada, sem nunca estar enamorado, sem ter recitado uma oração, sem nunca ter trabalhado

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