Cultura do dar, alma da Economia de Comunhão

Logo_Brasile_2011_SPaolo_rid2Palestra de Vera Araujo na jornada conclusiva dos eventos Brasil 2011 - São Paulo, 29 de maio de 2011

Cultura do dar, alma da Economia de Comunhão

por Vera Araújo

110529_SPaolo_Araujo_ridO conhecimento e a interpretação das mudanças históricas acontecidas no final do século recém concluído e que prosseguem com aceleração crescente, empenham e empenharão os estudiosos do social por muito tempo. Não é um trabalho fácil e nem mesmo atraente, e não pode nem mesmo ser adiado porque a aposta em jogo é muito alta: individuar na maré de dados a disposição, na enorme quantidade de estudos e pesquisas sociológicas o miolo da questão, aquilo que verdadeiramente incide sobre a qualidade de vida da humanidade e sobre a proteção da sua dignidade. Objetivo, este, árduo para alcançar.

Este olhar sociológico terá que ser sustentado por um olhar filosófico-teológico que na análise de causas e efeitos, acrescente um contributo de direção, de orientação das ações.

E aqui é quase supérfluo ressaltar o quanto seja necessário que tudo seja iluminado por um olhar carismático-profético, que indique novos horizontes partindo dos contextos históricos reais, assim como se apresentam, mas que nos faça levantar e decolar.

Sempre mais se sente a necessidade de uma compreensão menos fragmentada e mais unitária dos fatos e que nos dê a possibilidade de colher a alma da realidade, o ponto central, a conexão que rege tudo. Certamente é necessário aprofundar os diversos aspectos, mas é necessário também o momento da síntese.

Procuro oferecer aqui, algumas pistas de reflexões que quero deixar como convite a um maior aprofundamento.
Antes de tudo uma consideração inicial.

A passagem da sociedade moderna à sociedade global pode ser lida como a passagem de um riacho, ou o divisor de águas de uma montanha. Como algo “novo”, uma mudança de época que desenha novos cenários e delineia um novo vulto da sociedade atual. Estamos lidando com novas tendências, novos valores, novas instituições ainda não adquiridas, novas mentalidades, novas dinâmicas sociais.

Olhemos agora para alguns dos desafios com os quais nos confrontamos.
Parece-me importante ressaltar que uma característica significativa da sociedade global seja de como sente a própria identidade. O individualismo exasperado, quase o culto do próprio eu, do seu desejo interior de “lugar” de convivência social, marca profundamente a vida dos atores sociais.

A globalização não ajudou no processo de comunidade, não revigorou as ligações sociais. Ao contrário, fez emergir das novas situações, sentimentos e emoções nunca tão difundidas, até o ponto de configurar verdadeiras e inéditas patologias sociais, já conhecidas, mas ainda em crescimento: ânsia e depressão, insegurança e medo, incerteza e dúvida. A grande transformação atuante nos diversos ambientes da sociedade – a família – a escola – a empresa – as instituições – os lugares de festa e de divertimento – condena os indivíduos a uma solidão espantosa. Escreve  Zygmunt Bauman no seu brilhante ensaio A solidão global dos cidadãos: «O mundo contemporâneo é um recipiente repleto de medo e frustrações, na procura desesperada de um tipo de desabafo qualquer pessoa que sofre, pode esperar racionalmente de ter em comum com outros. O forte desejo deste tipo de desabafo, como nos recorda Ulrich Bech, “não contradiz a individualização, mas na realidade tornou-se patológico”. “A vida individual está saturada de pensamentos obscuros e premonições sinistras, e quanto mais se sofre na solidão e são evasivos e muitas vezes inespecíficos, mais são assustadoras. Tal como acontece em outras situações saturadas: uma partícula de poeira é suficiente para desencadear um violento processo de aglomeração”.

Esta análise antropológica facilmente nos leva a fazer outra mais sociológica e política.

A modernidade com a sua consequente complexidade misturaram novamente os papéis dos valores e dos pontos de referência da convivência humana. E a consequência é um ofuscar dos direitos e deveres dos cidadãos a nível individual e de povos. Não se conhece mais a essência das escolhas que, de algum modo, somos chamados a fazer; não são notadas as motivações, os efeitos, os objetivos. Na mercantilização global não existe mais distinção entre coisas e valores, entre comprometimento e indiferença, entre o eu e o outro.

A herança que trazemos nos poderia ajudar, não obstante a confusão dos novos cenários, a reencontrar a direção perdida. É, portanto, uma questão cultural, de reflexão sobre o nosso ser e o nosso operar, de busca sincera da verdade escondida no fundo das nossas consciências e nas chagas da história.  As nossas lembranças estão esfumaçadas, mas a nossa racionalidade e prudência talvez não estejam totalmente mortas.
Zygmunt Bauman, citado anteriormente, leitor e juiz atento do nosso tempo, em uma entrevista concedida algum tempo atrás a uma revista de sociologia, afirmava: “Até o dia que cada decisão política vier determinada, definida e misturada com razões do tipo econômico, nada poderemos fazer para aplacar nossas preocupações. Faltam-nos os instrumentos chaves que nos permitiriam enfrentar e vencer o poder das tendências globalizantes que alimentam as nossas ânsias. Tudo isso não é idealismo, mas realismo, se de realismo pode-se falar”.

Os problemas colocados pela globalidade pedem um retorno da política, a sua autonomia em relação à economia e ao mercado, ao poder da mídia. E isso não poderá acontecer se a política não se transformar  novamente em confronto de ideias, planejamento ao invés de simples, e freqüente, jogo corrupto de poder.

A política é chamada a reencontrar fortes valores, capazes de indicar conteúdos existenciais e objetivos a alcançar; ter capacidade e vontade de elaborar projetos audaciosos que possam responder aos desafios de hoje. De outra forma, será muito difícil percorrer o caminho de um desenvolvimento sustentável para todos os povos, administrar as inevitáveis controvérsias, resolver os recorrentes desequilíbrios econômico-sociais como aqueles causados pela grave crise econômico-financeira desencadeada em 2008. E o que dizer da capacidade de enfrentar explosões de violência, procura de mudanças radicais como a que está acontecendo hoje em uma grande e complexa área geográfica como do Oriente Médio?

Passando de uma visão geral para uma visão mais específica, podemos considerar os aspectos éticos da globalização, aspectos que são de certa forma, o coração de todo este fenômeno.

Já há alguns anos atrás em um Relatório sobre “globalização justa”, a ONU reconhecia que tal globalização tem um “potencial positivo enorme” que «abriu as portas a muitos benefícios, promoveu sociedades e economias mais abertas, encorajou uma troca mais livre de bens, ideias e conhecimentos, fez emergir uma consciência global sobre temas como desigualdade, pobreza, discriminação, poluição». Apesar disso, o Relatório afirmava, «existem desequilíbrios persistentes na economia global, eticamente inaceitáveis, politicamente insustentáveis. Aos olhos da maioria da população mundial, a globalização não responde as aspirações de um trabalho digno e de um futuro melhor».

Esta “leitura” feita pela ONU e retomada por muitos outros organismos internacionais, encontra consonância com o pensamento social da Igreja. Em um discurso na Plenária da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, João Paulo II afirmava: «A humanidade, ao iniciar o processo da globalização, não pode dispensar um código ético comum.  Isso não significa um único sistema socioeconômico dominante, ou uma única cultura que irá impor os próprios valores e critérios à ética. É o homem em si mesmo, na humanidade universal nascida das mãos de Deus, que precisa reencontrar as normas da vida social».

Este assunto será muitas vezes retomado por Bento XVI que o aprofundará e o atualizará em muitas intervenções, particularmente na encíclica Caritas in Veritate.

Após ter afirmado que «A globalização é um fenômeno multidimensional e polivalente, que exige ser cultivado na diversidade e na unidade em todas as suas dimensões, inclusive teológica», Bento XVI acentuando as armadilhas implícitas na globalização, afirma que essas «poderão ser superadas, somente se soubermos ter consciência daquela alma antropológica e ética, que interiormente impele a globalização para chegar à humanização solidária. Infelizmente, tal alma, muitas vezes é comprimida pela perspectiva ético-cultural de base individualista e utilitarista» (n. 33).

Concretamente: «trata-se de dilatar a razão e torná-la capaz de conhecer e orientar a estas novas dinâmicas imponentes, animando-as na perspectiva daquela “civilização do amor” cuja semente Deus depositou em cada povo, em cada cultura» (n. 42).

Realmente, parece que o relacionamento entre economia e ética, esteja no centro no cenário da globalização.

Para dar um rosto humano à economia de mercado é absolutamente imprescindível inserir nas estruturas e nas operações produtivas uma dimensão ética e não tanto determinista e, antes ainda, despertar nos operadores econômicos um comportamento que parte da consciência sempre mais real da interdependência entre indivíduo e povos. E esta é uma realidade antropológica e, portanto, política e econômica.

Cito ainda Bauman: “Todos os seres humanos que povoam o nosso planeta, vivem em um relacionamento de mútua dependência. O indivíduo não pode estar cem por cento seguro que a sua ação/não ação tenha/não tenha nenhuma consequência sobre a condição de um seu semelhante, por mais distante esteja no espaço e no tempo. E vice-versa, a condição na qual o individuo faz uma determinada escolha, e o sucesso ou o fracasso das suas ações são influenciadas por tudo o que acontece no mundo. (…) Se todos dependemos da ação/não ação de alguém, se a ação/não ação de qualquer um de nós tem uma consequência em qualquer que seja outro membro da nossa espécie, então cada um de nós é responsável por tudo o que acontece no mundo. Encontramos-nos por assim dizer, na mesma barca, e somos todos conscientes que esta barca pode afundar, e que o seu velejar depende das nossas escolhas/ações. A responsabilidade é de todos, e para todos, algo planetário. Concordo com Lévinas ao afirmar que a moralidade do sujeito nos dias de hoje comporta  uma  forma de responsabilização elevada ao quadrado: Precisa ser responsáveis, com aquela responsabilidade que nós já temos, objetivamente e implicitamente, dado o estado de mútua dependência no que diz respeito ao bem estar, às condições de vida, às perspectivas, ao destino” .

E após ter considerado a necessidade de uma passagem da interdependência interpessoal, baseada na consciência do indivíduo para a interdependência dos Governos, o mesmo Bauman  sugere: «As nossas instituições políticas são totalmente inadequadas se comparadas às dimensões planetárias da interdependência atual. A responsabilidade planetária já é uma realidade, mas um caminho longo e difícil nos separa do ter consciência desta responsabilidade. Resta-nos somente esperar que antes ou depois este esforço se concretize e dê bons resultados, pelo fato que (talvez pela primeira vez na história da humanidade), exigência moral e instinto de sobrevivência não se contrapõem como no passado, mas de fato tendem a convergir na mesma direção e sugerem as mesmas ações e estratégias».

Sentir-se responsável não é somente algo que está na consciência de cada um e de todos. É algo que deve acontecer e que se transforma em orientação das ações.

Retornando ao discurso econômico, trata-se de inserir no nosso operar uma nova dimensão, que possa modificar interiormente os relacionamentos produtivos e as estruturas de produção; que possa transformar a “cultura de mercado”, porque o mercado tem um seu modo de pensar e agir, uma sua escala de valores.

Segundo as palavras de Bento XVI: «o principio da gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade, podem e devem encontrar espaço dentro da atividade econômica normal. Esta é uma exigência do homem no momento atual, mas também uma exigência de razão econômica. Trata-se de uma exigência, ao mesmo tempo, da caridade e da verdade» (Caritas in veritate n. 36).

E esta exigência estava bem presente quando a Economia de comunhão foi lançada. Essa traz no seu DNA um processo importante de unificação: um dos seus pontos-chave - a cultura do dar – que nutre todo o projeto, o anima interiormente, o projeta para fora. Sem esta cultura do dar, do doar, da partilha, enfim: da comunhão, não pode existir Economia de comunhão.

Como se sabe, o doar nestes últimos anos emergiu novamente na vida e no pensamento como componente essencial das relações sociais e também econômicas. É um salto de qualidade que exige a descoberta do amor ágape porque o doar não é nada mais que amor em ato porque é dom de si. É um ato puro, gratuito, generoso, mas que não despreza a troca e a reciprocidade, pelo contrário a espera, mas sob um ponto de vista mais alto, como aperfeiçoamento do dom, do ágape.

«O dar é a forma terrena fundamental do ágape e a sua única medida histórica(…). Como tradução terrena do ágape, o dar encontra o seu mais genuíno e profundo significado, que transcende a imediatez da percepção quantitativo-qualitativa, precisamente no amor. (…) O amor verdadeiro, portanto, encontra a sua realização imediata no dar concreto»

Por isso, nem todo ato de dar é um verdadeiro dar. Existe um dar que é contaminado pelo desejo de poder sobre o outro, que procura o domínio e até mesmo a opressão dos indivíduos e dos povos.  Existe um dar que procura satisfação e prazer no ato de dar. No fundo, é expressão egoísta de si e, em geral, é compreendido por quem recebe como uma humilhação, uma ofensa. Existe também um dar utilitarista que no fundo procura o próprio benefício, o próprio proveito.

Um dar substancial e concreto que conota um modo de ser e de se comportar, portanto, uma verdadeira cultura.
É desta cultura que a economia precisa para tornar-se “economia de comunhão”
Falando a alguns empresários, Chiara afirmava:  «Se a economia de comunhão nasceu, é porque existe um contexto de cultura especial, que está criando um mundo novo: a cultura do dar» .

Diante desses desafios que existem e aqueles que nos aguardam uma das respostas, ou melhor, uma das soluções concretas e, profética, é com certeza a cultura do dar, simples e exigente. Ela se apresenta com todos os mapas e métodos para uma nova direção, uma mudança nas relações: entre os indivíduos na vida cotidiana fazendo emergir um homem novo, capaz de edificar novas estruturas.

Existem estruturas econômicas, políticas, financeiras que veiculam o mal, a opressão, a imposição.  O Papa Woityla chamou-as de “estruturas de pecado”. Na base dessas estruturas existem duas atitudes particulares: a ansiedade exclusiva pelo lucro e a sede do poder. Ambas podem ser superadas com a cultura do dar. Não só, podem nascer estruturas novas que veiculam o bem e que estão enraizadas na cultura do dar.

A Economia de Comunhão é um desses projetos econômicos, que nasceram justamente para fazer o bem, o bem comum e estão se tornando multiplicadores do bem.

Não se trata de uma utopia porque ela floresce de algo muito sólido, real, concreto: a cultura do dar.

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