A EdC rumo a 2031

Logo_Brasile_2011_rid2As conclusões da Assembleia EdC do dia 28 de maio foram apresentadas por Luigino Bruni. Publicamos aqui, na íntegra, o texto da sua palestra

por Luigino Bruni

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Estamos chegando ao final desta Assembleia, prontos a viver juntos a segunda etapa de São Paulo: a festa dos vinte anos da EdC.
Com o coração cheio de gratidão, seria bom nos perguntarmos qual foi o perfil da EdC que emergiu dos trabalhos, das experiências, dos diálogos, dos muitos momentos formais e informais desse evento especial, que contou com muitas graças,  vividos e construídos juntos. Vou tentar traçar aqui algumas linhas.

veja o texto

 

 Esta foi a primeira descoberta comum: compreendemos num modo totalmente novo que as perguntas de Chiara, que fizeram nascer neste país e lugar a EdC, eram grandes perguntas. Revimos e recordamos (graças ao tema de Alberto e ao último painel) que a EdC tem por vocação uma visão geral do agir econômico, do mercado, da relação entre riqueza e pobreza. Ela não é só uma proposta para criar um novo tipo de empresário e de empresa. Compreendemos também que grande parte dessa visão geral e ampla ainda é pouco maior que uma semente. Contudo queremos que essa semente dê frutos, torne-se uma árvore e dê frutos. Recordamos e compreendemos de novo que a EdC nasceu de uma crítica a um sistema econômico errado, pois ele, enquanto constrói os arranha-céus, não sabe matar a fome de uma criança, que morre de fome. Tem sentido para nós transformar as empresas, os empresários e os trabalhadores se tudo for movido pela insatisfação quanto ao modelo de desenvolvimento, que é o que queremos mesmo mudar, para que seja expressão da comunhão, da unidade e da fraternidade.

Ao mesmo tempo, entendemos também que, na EdC, existe, se bem que ainda em forma embrionária, uma ideia diferente e nova do empresário e um novo tipo de empresa. Como vimos, esse empresário é fraterno, capaz de inovações difíceis. Ele  “cria de tortas” (e não só distribui as “fatias de torta” aos “pobres”). Ele sabe criar uma rede dentro e fora da EdC. Acredita na Providência, porque todo dia constata a sua ação em sua vida, também econômica. Não teme a vulnerabilidade e as feridas dos relacionamentos, porque, junto com as feridas, entrevê também as bênçãos. Vai em busca dos pobres, "dos sós", porque sabe que o seu modo específico e mais eficaz de contribuir para um mundo mais unido e fraterno é incluí-los no sistema produtivo, criar com eles oportunidades de trabalho e de crescimento. Busca novas formas de administração para inventar “odres novos” para o “vinho novo” da EdC.

Nesses vinte anos, vivemos e compreendemos juntos muitas coisas. Também o projeto cresceu na sua compreensão (graças à cooperação com a AMU e a experiências pioneiras e custosas como na Bolívia) do que é a pobreza, vista a partir da comunhão. Com o tema de Genevieve, o painel e as várias experiências, revimos com olhos novos o nosso modo específico de amá-la e transformá-la, de ajudar uma pessoa pobre, da importância em considerar a pessoa contextualizada no seu ambiente (familiares, comunitários, civis, políticos…), a urgência de ativar novos instrumentos que evidenciem mais a reciprocidade e menos a ajuda unilateral (como o microcrédito e as experiências luminosas do Bangko Kabajan). Graças a Vera, voltamos às raízes da ideia da pessoa que move e promove a EdC. É uma pessoa capaz de comunhão, de amor, de cultura da partilha: o homo agapicus.

Poderia e deveria continuar, recordando sobretudo a vida, abundante e rica, que surgiu das várias experiências no palco e nos intervalos, nos corredores, nas conversas pessoais: a EdC foi, é e será sempre a vida de um povo, uma vida que dá fundamento, vericidade, força e profecia às palavras que se dizem e se escrevem, pois elas seriam uma voz sem importância, se não nascessem dessa vida que é cada vez maior.
Quais são os desafios que nos aguardam, à luz do caminho percorrido nesses vinte anos e nesta Assembleia, e gratos aos muitos (na terra e no céu) que, no quotidiano, acreditaram na profecia de Chiara e a transformaram em história?

Eu me limito, com simplicidade e a certeza de já ter partilhado e compreendido com muitos ambas as coisas que direi, a descrever alguns desses desafios, esperando não exprimir somente pensamentos meus, mas desejo dar voz ao que muitos de vocês vivem, pagam e pensam.

Os aspectos da EdC que garantem o futuro

  • Os empresários e a criação de nova riqueza

Um primeiro desafio espera as empresas da EdC. Nesses vinte anos, fomos entendendo, em meio aos erros, que a principal contribuição que a EdC oferece para aliviar a extrema pobreza e criar uma economia e um mundo de comunhão, realizando assim o principal objetivo que Chiara há vinte anos apresentou à EdC, não é primariamente a redistribuição da riqueza (pegar dinheiro e recursos dos “ricos” para dá-los aos “pobres”), mas a criação de nova riqueza, incluindo no processo as pessoas em dificuldades, com vários tipos de necessidades. É preciso criar novas “tortas” e não só cortar diversamente as "fatias" de uma torta doada e criada antes. Aquele que recebe os benefícios da riqueza criada, não participa logo, de uma forma visível e concreta do processo produtivo, por isso é muito difícil que a ajuda não seja paternalista e assistencialista. Quando Chiara lançou aqui a “bomba” disse, como recordamos e refletimos hoje de manhã, “devemos criar novas empresas” e não disse: “Devemos converter os nossos empresários para que sejam mais generosos e deem mais”. Claro, existe também este segundo aspecto (para os empresários e para todos nós), mas a proposta da EdC é produtiva, não redistributiva, se bem que os dois aspectos não se excluam, já que a EdC também redistribui riqueza, sobretudo criando-a diversamente, num modo inclusivo, sustentável, fraterno, justo, onde se promove uma autêntica participação dos dependentes na administração da empresa. Devemos evidenciar, se bem que de modo resumido, que é preciso rever também o nosso modo de contabilizar, nas nossas estatísticas, os lucros doados pelas empresas. Se é verdade que as partes dos lucros são três e que a comunhão não é filantropia, então também o terceiro “um terço”, que é investido na empresa, para fazê-la viver e criar postos de trabalho (ou que é distribuído entre os sócios e acionistas como justa e igual remuneração do seu investimento), é economia de comunhão, é riqueza partilhada para o bem comum.

O primado da criação de riqueza sobre a redistribuição é um desafio que ainda devemos levar a sério e desenvolver, porque nesses vinte anos foi muito enfatizado, e com razão (pois é coessencial), o empresário que doa. Muitos deles deram muito, arriscando sem garantias, dando inclusive quando a prudência teria sugerido para acumular reservas. Porém, certas vezes esse doar foi simples demais e se reduziu em “dar dinheiro”. Não se procurou igualmente “doar e criar oportunidades, preparação, postos de trabalho…”, esquecendo-nos assim de que o primeiro dom do empresário é fazer entrar em campo a sua vocação empresarial, que é um talento de criatividade, de solução de problemas, de criação de coisas novas, de inovação, de capacidade de mudar o mundo onde atua.

Este primeiro aspecto é uma fronteira importante a ser alcançada nos próximos anos, isto é, uma nova estação de entusiasmo, de criatividade, de novas ideias, novas empresas e novos projetos, para colocar os empresários, antigos e novos, talvez mais unidos como uma rede, no próprio lugar, que é um lugar de quem “alarga o recinto”, que faz avançar a fronteira do desenvolvimento e da comunhão e não aquela dos generosos filantropos. O primeiro dom é sempre o dom da vida. E o empresário, que vive a comunhão, doa a vida também e sobretudo inovando e criando coisas novas,  oportunidades com e para os outros.

  • Relacionamento direto com a pobreza

Temos um segundo passo. Para que essa nova estação de projeção, de criatividade e de entusiasmo da criança que se torna adulta possa se tornar concreta, estou convencido de que a EdC tem uma necessidade essencial de um relacionamento direto e vital com as fisionomias reais e concretas da pobreza, Foi o que vimos nesses dias: as experiências mais fortes e proféticas desses anos foram feitas por quem vive em contextos onde a pobreza é bem visível e procura com a criatividade do ágape e da comunhão novas soluções.

Quando Chiara lançou a EdC, impressionada com a “coroa de espinhos”, com a pobreza em São Paulo e no Brasil, chamou a comunidade brasileira a fazer algo mais para resolver esse escândalo. No Brasil partiu: “somos pobres, mas muitos”; pouco depois nasceu o Pólo Spartaco, com mais de 100 empresas, porque a EdC estava direta e visivelmente ligada à pobreza que Chiara nos mostrou. Se faltar este contato direto com as várias formas de pobreza, para os protagonistas das empresas da EdC acaba não sendo tão claro, com o passar dos anos, o sentido profundo do que fazem. Deixou de ser suficiente arrecadar dinheiro na Europa, nos Estados Unidos ou nas regiões mais ricas dos nossos Países para depois empregá-lo em outros lugares do mundo ou dos nossos países. Claro, isso também é comunhão de bens e a EdC tem uma vocação mundial e global, que convida para esta redistribuição da riqueza com pessoas que não vejo, mas sinto perto de mim, como irmãos e irmãs, pois são seres humanos e ninguém nos é indiferente. Muitas dessas pessoas vivem a nossa mesma cultura e empenho pela unidade.

Mas é necessário ir à procura de novas e antigas pobrezas que estão presentes em todos os países do mundo. O que fazer então? Por um lado, evidenciar mais o vínculo entre a atividade de todas as empresas do mundo e alguns projetos (sobretudo os mais significativos e maiores) que a EdC promove. Depois de vinte anos os microprojetos sozinhos não bastam mais para manter viva, nos empresários, a vocação à EdC. Não é suficiente: é preciso fazer mais e criar laços diretos entre a atividade das empresas no mundo e os projetos que a EdC no seu conjunto leva para frente. Alguns passos foram dados nos últimos anos (os relatórios, o site…), mas não basta: a experiência da Bolívia mostrou que, quando um empresário assume com força alguns projetos de desenvolvimento, todos crescem, os projetos e as empresas envolvidas.

Mas ainda é mais urgente suscitar nos empresários da EdC uma nova fase de criatividade para descobrir as pobrezas em suas cidades, pobrezas que são muitas (e não só materiais) e fazer algo diretamente para os excluídos das nossas cidades, juntos e com criatividade. Ouvimos experiências que vão nesta direção, mas devemos fazer mais, também nos Pólos, que são um dos aspectos mais lindos da EdC, elementos essenciais do projeto. Eles terão novo impulso, quando a vocação da EdC (criar riqueza a ser compartilhada para incluir quem é excluído do nosso sistema econômico) for ainda mais evidente dentro dos Pólos, na sua atividade ordinária, incluindo pessoas necessitadas dos próprios territórios. Acabamos de fazer o recenseamento das empresas da EdC. Logo vamos lançar em cada região do mundo um recenseamento das pobrezas dos nossos territórios, primeiro dentro e depois fora das comunidades ligadas aos Focolares.

A EdC nasceu e cresce porque um mundo com pessoas pobres de um lado e opulentas do outro não pode ser um "mundo unido". Não se realiza assim o “que todos sejam um”, que é a missão do carisma da unidade e também da EdC, como já recordou Emmaus na sua importante mensagem inicial. Portanto, a EdC vai considerar de modo especial a pobreza (e as riquezas não compartilhadas, que é outra forma de "miséria") e em todos os países do mundo, visto que teremos sempre os pobres entre nós. Se o nosso carisma é da unidade, da fraternidade e da comunhão, o nosso olhar deverá se concentrar cada vez mais nas pobrezas (quase todas) que se escondem nos relacionamentos desfeitos, doentes, injustos, errados, onde se vê a solidão da indigência, mas também da riqueza não dividida

  • Um caminho para todos: algumas pistas

Viemos aqui, a este lugar, para nos deixar questionar pela história, pela geografia, pelo genius loci, por aquele daimon que não é só individual, mas também comunitário, dos lugares, dos povos. No final dessa Assembleia ressaltaram para mim, num modo forte, dois elementos desse nosso voltar às origens, que considero realmente cruciais para o nosso futuro.

Chiara (para mim é evidente demais no vídeo da “Bomba” e na colocação sobre os muros do comunismo e a encíclica“centisimus annus”: nem capitalismo nem coletivismo…), quando vê tudo isso e depois lança a EdC, ela a intui como uma nova via para todos, como uma possibilidade para viver diversamente a economia e dirigir uma empresa: os membros do Movimento (tanto os empresários como os pobres) eram para ela somente o primeiro, decisivo e fundamental passo de um caminho que partia do coração do Movimento para chegar à Igreja, à Humanidade, ao “que todos sejam um”.
Nestes dias de Assembleia, inclusive nos vários congressos em várias partes do mundo (uma etapa fundamental nessa compreensão foi a recente viagem à África), muitas pessoas e empresários nos dizem que querem aderir à EdC, porque vislumbram nela uma nova via para si mesmos, para a empresa e para a economia. Fiquei tocado por um banqueiro em Nairobi que se mostrou muito interessado pela EdC; um interesse que me levou a fazer uma reflexão. No modo como a EdC é organizada e apresentada hoje, mesmo a este banqueiro, mas a qualquer empresário, pequeno ou grande, que chega  “de fora”, com o desejo de viver também pela EdC, não conseguimos ainda oferecer uma resposta à altura da ideia de Chiara, inclusive porque a EdC ainda está ligada demais às estruturas internas do Movimento dos Focolares. Por isso é necessário começar a buscar algo novo (e o fizemos nesses dias), pois a ideia que demos nesses primeiros vinte anos não pode ser a resposta para os próximos vinte anos a quem desejar se unir a nós. Devemos apresentar e transformar a EdC numa verdadeira resposta à "coroa de espinhos do mundo", como Chiara nos lembrou num diário de junho de 1991, redescoberto recentemente.

De fato, nesse diário Chiara escreveu assim que voltou do Brasil: “Nas semanas passadas eu desejava muito ter um quadro da Desolada para colocá-lo ao lado do quadro de Jesus Abandonado, que fica na minha frente no meu quarto. Queria que fosse bela e possivelmente nova. Voltando do Brasil, o desejo ficou maiMadonnina_di_Edc_rids agudo e, recordando uma Desolada que Foco tinha deixado, eu a procurei e a encontrei… Mas uma nova circunstância foi tocante para mim nessa entronização de Maria no meu quarto e no meu coração: observei que aquela Desolada aperta em seu coração, coberta por um pedaço do seu manto, a coroa de espinhos de Jesus: aquela coroa que esteve sempre tão presente para nós, no Brasil, símbolo da pobreza e da miséria que circundam as grandes cidades e não só… E vi nessa postura dessa imagem tudo o que aconteceu lá: um amor novo, apaixonado pelos pobres, espinho na cabeça de Jesus a ser tirada e trazida ao coração. Mandarei a Ginetta e Volo uma foto dessa nossa Mãe como recordação do “paraíso de 91” (assim Chiara chamou as 3 semanas transcorridas no Brasil)” (6 de junho de 1991).

Desse diário se percebe, imediatamente e com força, que a coroa de espinhos e os pobres são “símbolo da pobreza e da miséria que circundam as grandes cidades e não só”, e que a vocação da EdC, que tem o seu húmus e o seu coração pulsante no do Movimento dos Focolares, é chamada a superar a si mesma, sem perder – este é o desafio – o DNA, a cultura da partilha, os homens novos, que caracterizam os protagonistas do nosso projeto. Este é um dos significados do “um terço” dos lucros investidos para a formação de homens novos. Hoje somos chamados a preparar programas formativos, como já se está fazendo na Universidade Sophia, nas nascentes escolas na África, nos cursos sobre a EdC nas dioceses da Itália; mas é preciso fazer mais, pois, se a vocação da EdC é “abraçar a coroa de espinhos”, devemos viabilizar uma ação ampla, sem perder a força da cultura típica do carisma da unidade, onde a EdC nasceu e de onde se alimenta, senão fracassará.
Uma metáfora que pode ajudar a entender essa nova fase é a (evangélica) da semente e da árvore: se a semente não morre, fica só; se morre, salva o seu DNA e um dia será uma árvore. A primeira fase da EdC, aquele projeto de quase 800 empresas, que arrecadam cerca de 700.000 euros por ano para destiná-los aos nossos projetos, deve evoluir e transformar-se, “morrer" (evangelicamente), que no fundo é realizar o que está escrito no seu código genético. Não o faz para se perder, mas para viver realmente na eterna lógica evangélica. Fazendo assim, a EdC não perderá o encontro com a história”, como Chiara disse em 1992.

Mas o que essa evolução de semente para árvore (ou pelo menos numa plantinha) pode significar concretamente? Não sei, mas me limito a dar algumas sugestões:
1.    Ter a coragem de “lançar as redes ao largo” e talvez em regiões novas do mar, sobretudo perto de quem, dentro e fora das Igrejas e religiões, está procurando um caminho novo para a economia, com a mesma fé e confiança que vimos e aprendemos com Chiara, Ginetta e os primeiros pioneiros da EdC.
2.    O carisma da unidade tem a função de estreitar em unidade as várias expressões da economia movidas por um ideal, os vários carismas econômicos e civis presentes hoje no mundo. Com humildade, mas com coragem carismática, devemos ser instrumentos de diálogo e de unidade com todos os pesquisadores de uma economia nova e solidária (foi também este o significado da mesa-redonda); ser um fermento nesse momento de crise, onde se procura, com a aceleração da história, algo novo.
3.    Não abaixar o nível da radicalidade das demandas da EdC (que escrevemos juntos na sua Carteira de Identidade), mas ser livres, generosos e flexíveis em relação ao “como” e à “quem” incluir e doar os lucros, para poder envolver no projeto empresários que amam como nós os pobres, mas querem seguir caminhos concretos, para ajudá-los e envolvê-los.
4.    Apresentar a EdC amplamente, ser claros e radicais nas coisas necessárias  (atitude para com os pobres, comunhão dentro e fora da empresa…), mas não pedir a radicalidade nos elementos culturais, variáveis e não essenciais do projeto. Isso muitas vezes afastou pessoas que se aproximaram com boas intenções, mas se assustaram com uma visão compacta demais sobre o que é a EdC. Descobrimos juntos o que é a EdC, na dinâmica da história e a descobrimos também graças aos novos que chegam, que nos foram mandados pela Providência.
5.    Encontrar formas de envolvimento e de formação (escolas) mais adequadas para o mundo a empresa: por exemplo, a formação deve ser feita não só com “encontros”, onde estamos sentados horas e alguém fala. Esse sistema  funciona para um encontro espiritual e menos para pessoas de empresa. Também nisso é necessário criatividade carismática, saber inventar instrumentos e métodos de formação novos (não só nos conteúdos), que respondam às exigências dos empresários e não sejam um peso ou um preço a pagar para fazer parte do projeto.
6.    Ser corajosos, sobretudo nos Pólos, em buscar novas formas de governance, de comunhão, e ali desenvolver instrumentos e aspectos (as “cores”, que são um  elemento novo e essencial das organizações que se inspiram no carisma da unidade), como o colóquio, a correção fraterna, a comunhão das experiências e sobretudo o pacto de misericórdia e do amor recíproco. É preciso trabalhar muito para encontrar as justas mediações e evitar ingenuidades e fundamentalismos. Todavia essa é uma passagem obrigatória para o futuro, onde já estão sendo dados os primeiros passos num terreno fecundo com o objetivo de traduzir a novidade da EdC num dom para muitos.
7.    Sair à vida pública, dando origem, onde for possível, a realidades civis (associações, fundações…), onde a laicidade e universalidade do projeto sejam operativas e estejam desligadas das estruturas internas do projeto.
8.    Estar certos de que no mundo muitas pessoas possuem a vocação à grande EdC de Chiara; esperam encontrá-la, se apresentada na sua radicalidade, abertura e universalidade.
9.    Deixar espaço para a criatividade regional e cultural, porque a EdC é una, mas as EdCs são muitas, dependendo dos genes dos povos e das culturas: acho que será belo mostrar em 2031 uma EdC una, mundial e global, mas também toda africana, coreana, filipina, norte-americana, onde a diferença (como disse Vera) se torna riqueza.

A grande atração do tempo moderno

Para concluir.
Chiara escreveu uma meditação que profeticamente serve para acompanhar o nosso desenvolvimento, visto que, com a linguagem sábia, delineia uma espécie de mapa do que vivemos e sobretudo do que vamos viver. É essa:

"Eis a grande atração do tempo moderno:
atingir a mais alta contemplação
e manter-se misturado com todos,
lado a lado com os homens.
Diria mais:
perder-se no meio da multidão,
para impregná-la do divino,
como se ensopa um naco de pão no vinho.
Diria mais:
partícipes dos desígnios de Deus
sobre a humanidade,
traçar sobre a multidão recamos de luz
e, ao mesmo tempo, dividir com o próximo
a injúria, a fome, os golpes, as alegrias fugazes.
Porque a atração do nosso, como de todos os tempos,
é o que de mais humano e mais divino
se possa pensar: Jesus e Maria,
o Verbo de Deus, filho de um carpinteiro;
a Sede da Sabedoria, mãe de família".

Nos primeiros anos, vivemos sobretudo a primeira fase: “Penetrar na mais alta contemplação e permanece misturado com todos, homem ao lado do homem”. Como nos mostraram claramente os slides: “assim na terra como no céu”. Nesses anos a EdC foi genuinamente uma via de alta contemplação, mesmo mergulhados nos balanços, contratos, máquinas e estantes. Quem sentiu a vocação à EdC, a ela respondeu e começou a caminhar, viveu e vive uma verdadeira “contemplação”, uma vida contemplativa no mundo, uma das grandes novidades introduzidas pelo carisma da unidade. Assim nos recordou Alberto com a sua experiência do primeiro dia. Foi e é alta contemplação na quotidianidade da vida. Não estaríamos aqui se cada um de nós (sobretudo os mais “antigos”) não tivesse vivido pelo menos um desses momentos de contemplação, onde se toca o céu; o paraíso é realidade e tudo toma sentido e significado verdadeiros. Porém, estamos espalhados no mundo: Milão, Fortaleza, Paris e Manila, perdidos na multidão, misturado com todos.
Ao mesmo tempo, conseguimos entrever um sinal da segunda etapa que Chiara, nessa esplêndida meditação, nos indica: “Diria mais: perder-se na multidão para impregná-la de divino, como se embebe um pedaço de pão no vinho”. Aqui Chiara indica um “algo mais”. Não só “homem ao lado do homem”, mas perder-se na multidão, desaparecer, quase morrer, para plasmar por dentro a sociedade e a economia, identificando-nos com elas (o pão e o vinho). Este perder-se na multidão é o trabalho que nos espera, quando a semente, para ser árvore, deve, num certo sentido, “perder-se” na multidão; não simplesmente para se perder, mas para plasmar e dar sabor à vida que a circunda.
Por fim, Chiara indica um terceiro passo, um a “mais”, que, ainda mais profético, como cada profecia e cada carisma (que não é utopia), é sempre um “já” que indica um “ainda não”:

Diria mais: partícipes dos desígnios de Deus sobre a humanidade, traçar sobre a multidão recamos de luz e, ao mesmo tempo, dividir com o próximo a injúria, a fome, os ultrajes, as alegrias fugazes”. Aqui se entrevê um trabalho de luz, de visão, saber indicar o sentido da história, os sinais dos tempos, ser faróis e luzes para muitos, compreender o sentido da vida também econômica que vivemos. A EdC foi, “já e ainda não”, também isso quando é estimada, porque nela se vê uma luz, uma perspectiva, que é um dom para todos. “Ao mesmo tempo”, partilhar com o homem do nosso tempo os sofrimentos, a fome, os ultrajes e as alegrias. A fome e as alegrias de todos, da nossa gente, que na realidade anseia e espera uma economia de comunhão.
E conclui: “Porque a atração do nosso, como de todos os tempos, é o que de mais humano e mais divino se possa pensar: Jesus e Maria, o Verbo de Deus, filho de um carpinteiro; a Sede da Sabedoria, mãe de família”.
Um Deus que é também filho de um carpinteiro (trabalhador e empresário), e Maria, que é sede da sabedoria (e de toda a cultura e ciência do mundo), mas também Mãe de casa: a EdC será fiel à sua vocação e será, ao mesmo tempo, contemplação e oficina, alta cultura e trabalho concreto no quotidiano.

Até o ano de 2031! E obrigada por esses primeiros, esplêndidos vinte anos!

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