Mulher, desenvolvimento e trabalho: o feminino na dimensão económica


No âmbito da primeira conferência internacional sobre as mulheres e os direitos humanos, intitulada “Vida, família, desenvolvimento: função das mulheres na promoção dos direitos humanos”, promovida pelo Pontifício Conselho da Justiça e da Paz

Mulher, desenvolvimento e trabalho: o feminino na dimensão económica

Intervenção de  Alessandra Smerilli

Roma, de Março de 2009

Alessandra_Smerilli

Introdução                “O princípio que regula as actuais relações sociais entre os dois sexos – a subordinação de um ao outro sancionada pela lei – é um princípio incorrecto em si, o qual, tendo-se tornado hoje em dia um dos principais obstáculos ao progresso humano, deveria ser substituído pelo princípio da absoluta igualdade”.

Desde 1869, ano em que Mill escreceu o livro “A submissão das mulheres”, muita coisa mudou, e, pelo menos em termos de princípio, hoje quase ninguém ousaria colocar em dúvida a substancial paridade de dignidade entre homem e mulher. Os dados à nossa disposição mostram de resto que, pelo menos nos países ocidentais, a paridade de dignidade se está traduzindo rapidamente também em paridade de oportunidades. Com certeza que o caminho é ainda longo, e em muitas partes do mundo ainda se verifica o fenómeno posto a nu por Mill, isto é, a substancial subordinação das mulheres sancionada na lei ou fruto da tradição.

ver documento completo com notas (em língua italiana)

Neste documento deveriam ser abordados muitos temas, tais como, este mesmo da igualdade de oportunidades, o fenómeno crescente das migrações femininas, a relação entre trabalho e vida familiar, a relação entre desenvolvimento e condição da mulher, o fenómeno da feminilização da sociedade e da economia, etc. Não podendo enfrentar todos os temas elencados de maneira adequada, concentrar-nos-emos sobre alguns núcleos, que podem fornecer-nos chaves interpretativas sobre o papel da mulher na esfera social e económica. Acima de tudo, é necessário compreender se tem sentido falar de um papel feminino na dimensão social e económica, e portanto se há uma especificidade do feminino nesta esfera.

 

Para tal é necessário evitar cair em duas autênticas ratoeiras, as quais nem sempre são entendidas como tais. A primeira é aquela em que cai (e faz cair) quem sustenta que a paridade de dignidade seja equivalente a uma perfeita igualdade, não fazendo sentido falar de um papel da mulher, porque ele não é diferente do papel do homem. Mill, por exemplo, sustentava que a diferença entre home e mulher era visível só pelo facto de as mulheres não terem as mesmas possibilidades dos homens, mas, uma vez eliminadas as disparidades, e uma vez abertas as portas da instrução e da carreira às mulheres, elas tornar-se-iam em tudo semelhantes aos homens: na essência (dizia) não há diferença entre o feminino e o masculino. Por outro lado (segunda ratoeira), há quem exalte as especificidades da mulher, tornando-a ainda mais fonte de descriminação, como nos recorda Laura Zanfrini: “a promoção da equidade está em tensão com a valorização das diferenças e das especificidades da componente feminina. O primeiro objectivo é criticável por homologar as especifidades, assumindo o masculino como a norma a que se deve tender; o segundo pela utilização de imagens estereotipadas do masculino e do feminino”.

Procurando dizer alguma coisa mais sobre este tema, chamanos em nossa ajuda a antropologia bíblica. No livro do Génesis lemos que a mulher é para o homem, Adão, um seu semelhante (Gen, 2, 20). A palavra hebraica que nós traduzimos por ‘semelhante’ é Ezer Kenegdó, que literalmente significa “olhos nos olhos”: e não “dois idênticos”,  mas sim dois que podem olhar-se nos olhos, em igualdade, e da mesma substância; mas ao mesmo tempo completos apenas na reciprocidade, enquanto homem e mulher à imagem do próprio Deus. Só neste quadro é possível falar então de especificidade. No capítulo 1 encontramos ainda mais. Lê-se: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou” (1, 27). Com efeito, a estrutura do texto bíblico, e a regra semítica do paralelismo, dizem-nos muito da antropologia do Génesis (cf. O versículo 27 5): a imagem de Deus no homem (adam) encontramo-la na relação homem-mulher, na sua capacidade de relação na reciprocidade com o outro/a. Também as palavras usadas pela Bíblia, ish e isha (Gen. 2, 24-25), para se referir ao homem e à mulher, revelam uma relação, onde o nome (a realidade profunda) de um remete necessariamente para o do outro. E, como nos recorda a ‘Mulieris Dignitatem’: «Na “unidade dos dois”, o homem e a mulher são chamados desde o início, não só a existir “um ao lado do outro” ou “em conjunto”, mas são chamados a existir reciprocamente um para o outro... Baseando-se neste princípio recíproco de ser “para” o outro, na “comunhão” interpessoal, desenvolve-se nesta história a integração na própria humanidade, querida por Deus, daquilo que é o “masculino” e daquilo que é o “feminino”». Se, portanto, tem sentido falar de um papel feminino ou de um “génio feminino” na vida em comum, e também na economia, é preciso especificar bem qual será ele.
Limito-me a quatro pistas de reflexão:

a) A vocação da mulher para a relação, vista como um bem em si, e não de maneira puramente instrumental;
b) b) A criatividade e a intuição;
c) A gratuidade;
d) A atenção ao presemte e a comunhão.

Mas antes de passar em análise estas pistas, convém perguntarmo-nos se a economia e a sociedade têm necessidade hoje destas especificidades. E para fazê-lo não podemos deixar de falar daqueles que são, pelo menos em linhas gerais, os problemas ligados à economia.

As crises económicas
É hoje evidente que a crise financeira e económica está a revelar-se, acima de tudo, uma crise ética, cultural e antropológica, e é a este nível, para além dos níveis da economia e das políticas económicas, que é preciso trabalhar para sair dela. A ‘bolha’ financeira que explodiu no passado verão foi a ponta de um iceberg, num processo em que vimos os bancos passarem de instituições a especuladores, entendendo por especuladores aqueles cujo único fim é o da maximização dos lucros próprios e dos accionistas (nos últimos 10 anos, os bancos viram, em média, os seus lucros decuplicarem, graças às “inovações financeiras”). E se pensarmos que os primeiros bancos populares tiveram origem graças à escola franciscana, com os montepios no século quinze (percursores do moderno microcrédito), para aliviar a pobreza, então compreenderemos bem quanto estejam longe daquele tipo de Banca os especuladores sem escrúpulos que lançaram no mercado títulos de alto risco (como tal muito lucrativos) ligados aos empréstimos.

Mas não podemos parar por aqui. Para delinear as causas da crise não podemos acusar apenas os bancos. A crise ampliou-se por causa dos especuladores sem escrúpulos, é verdade, mas também em consequência de uma cultura consumísta que ‘drogou’ o consumo: Foi-se criando nestes últimos anos a ilusão de que não é necessário ligar o consumo ao próprio rendimento. Outrora, para comprar um bem durável (um carro, uma máquina de lavar, etc.), primeiro punha-se dinheiro de lado, fazendo sacrifícios, depois fazia-se a compra. Hoje, as famílias, em particular no mundo ocidental, já não poupam: o “compra hoje e começa a pagar em 2010” tornou-se um estilo habitual. Mais, tornou-se igualmente habitual endividar-se para umas férias exóticas, telemóveis de último modelo, etc. E isto contribuiu para ampliar a crise, uma vez que, enquanto tudo funciona, isto é, enquanto a economia está em crescimento, este castelo de cartas aguenta-se, mas aos primeiros problemas o efeito dominó desencadeia-se, arrastando todos com ele.

Pelo contrário, como também nos recorda a Doutrina Social da Igreja, a poupança é importante, é uma ligação entre os vários componentes da sociedade: entre gerações no tempo (as poupanças de um pai tornam-se no curso para o filho), e entre famílias e empresários de hoje (as famílias poupam e os empresários, graças ao sistema bancário, podem investir).

Um outro grande problema, ao qual os economistas estão ultimamente prestando atenção, é representado pelo assim chamado paradoxo da felicidade. Com efeito, demo-nos conta de que, particularmente nos países ocidentais, o aumento constante do rendimento per capita era acompanhado por uma diminuição da felicidade subjectiva, do bem-estar das pessoas. As variáveis-chave deste fenómeno foram identificadas em dois outros fenómenos ligados entre si: o aumento progressivo da oferta de bens de conforto e a diminuição dos bens relacionais. Tibor Scitosky afirma que o aumento do rendimento produz efeitos meramente passageiros sobre o aumento do bem-estar das pessoas, porque a tendência é a de gastar o rendimento em bens de conforto que depressa levam à acomodação e ao aborrecimento. Os bens de conforto – di-lo a mesma pessoa – dão uma utilidade imediata e o seu uso, através de um mecanismo de habituação e de aumento das aspirações à medida que o rendimento aumenta, gera a exigência de mais conforto, criando mecanismos tais que, à medida que aumenta o rendimento, a insatisfação é cada vez maior (como sobre um tapete rolante).

Uma raiz desta grande crise, que é sobretudo antropológica e moral, podê-la-emos entroncar na despersonalização das relações, e portanto numa crise de responsabilidade: se responsabilidade vem de responder, na moderna economia e finança já não encontramos pessoas que respondam às nossas perguntas, mas sim aos protocolos, cartas, algoritmos (Basileia II, por exemplo). É portanto uma crise de relações, uma carestia crescente de bens relacionais. Com efeito, é a relação gratuita que hoje se encontra ameaçada de extinção, e com ela a capacidade de nos encontrarmos na reciprocidade.

A economia, portanto, também graças a esta crise e a estes problemas que se tornam cada vez maiores, tem uma grande necessidade de algo de novo. Estou profundamente convencida de que este algo de ‘novo’, invocado por muitos, tem muito a ver com a função da mulher na dimensão económica. Creio que este é um tempo de oportunidades para as mulheres, para que ajudem a humanidade, em vista a um bem comum maior, a sair desta crise sem que haja muitos feridos.

Vejamos então em que é que se pode exprimir o específico feminino na economia. Acima de tudo, ocorre recordar que, num certo sentido profundo, a economia é mulher: não apenas porque nas representações clássicas ela foi sempre representada com imagens femininas, mas sobretudo porque a ‘oikós-nomos’ é o governo da casa. Ora, quem nas sociedades tradicionais se ocupava da gestão da casa eram as mulheres. Com a modernidade e com o nascimento da economia política, a economia separou-se da casa, tornando-se assunto unicamente dos homens. Se hoje a economia quer tornar a estar em relação com a oikós (entendida também e sobretudo como ambiente, como desenvolvimento sustentável) deve reencontar-se com a mulher e com o feminino, mas de modo totalmente novo relativamente às sociedades tradicionais desiguais, como recordava Mill.

O relacionamento como bem                                

Em primeiro lugar, foi sempre reconhecida à mulher a característica de viver as relações humanas, não apenas instrumentalmente, mas como fim em si. E hoje, num momento em que a procura de bens relacionais (que de há alguns anos para cá são reconhecidos como bens económicos) está em crescimento, a oferta de tais bens, em família, nos locais de trabalho, no mercado, está profundamente ligada também à mulher, e ao seu ‘génio’: “Os bens mais preciosos não devem ser procurados, mas esperados. De facto, o homem não pode encontrá-los com as suas próprias forças, e se se põe a procurá-los, encontrará no seu lugar falsos bens, cuja falsidade nem sequer saberá reconhecer”. Não é seguramente por acaso que tenham sido duas mulheres (Martha Nussbaum e Carol Uhlaner) a quem se deve a teoria dos bens relacionais.

O bem relacional é um bem onde a relação é o próprio bem. Uma relação que não é um encontro de interesses, mas um encontro de gratuidade. E o bem relacional exige motivações intrínsecas relativamente àquela relação particular. A teoria económica começou a ocupar-se dos bens relacionais, quando os estudiosos se deram conta de que as lentes com que a economia olhava para o mundo não viam o valor da relação e, não o vendo, ameaçavam destruí-lo. Nos últimos anos, aliás, o tema dos bens relacionais e da sua importância para uma vida boa, mas ao mesmo tempo da sua fragilidade, regressou à ribalta, por causa dos acima citados paradoxos da felicidade.

A criatividade e a intuição                                 

Uma outra dimensão tipicamente feminina é a da criatividade e da intuição: dimensão fortemente esmagada e desvalorizada num mundo económico em que têm valor a lógica dedutiva e a racionalidade (em particular a instrumental), a qual se afirmou sobretudo a partir do Iluminismo, como forma de conhecimento verdadeiro ou “científico”. A grande tradição cristã e humanística, ao contrário, como recorda o psicólogo cognitivista Gigerenzer, tinha reconhecido um valor igual, se não mesmo superior, à intuição (que era atribuída aos anjos de modo perfeito): “No pensamento ocidental, a intuição começou por ser tida como a forma mais certa de conhecimento e acabou por ser desprezada e ridicularizada como um guia caprichoso e pouco fiável. Outrora, acreditava-se que os anjos e os seres espirituais tivessem intuições de clareza impecável, superiores ao raciocínio humano, e segundo os filósofos era a intuição que nos fazia “ver” as verdades autoevidentes da matemática e da moral; hoje, a intuição está cada vez mais ligada às nossas vísceras e não ao cérebro, e da certeza dos anjos caiu para um simples sentimento.

A intuição é mais típica da mulher que, precisamente por isso, colhe aspectos da realidade que escapam a uma lógica apenas dedutiva: “A intuição é um modo de conhecimento muito particular: é a iluminação, é um modo de ir à descoberta, mediante raciocínio e sentimento fundidos ambos, saltando por cima dos aspectos formais do pensamento dedutivo e indutivo. Ela leva à penetração da verdade através de modos insuspeitados. A mulher possui esta particular capacidade de colher dentro de si mesma e dentro das próprias formas inconscientes elementos criativos e inovadores de grande importância, quer no plano individual, quer no plano colectivo. A mulher é alguém que se baseia sobre a experiência e que colhe da vida os aspectos mais secretos e recônditos. A mulher sabe portanto reportar-se concretamente às coisas e às situações”. Também a criatividade, outra característica muito ligada à mulher, é necessário fazê-la entrar na economia: sai-se das crises também graças a soluções inovadoras.

A atenção ao presente e à comunhão

Uma característica da mulher é a atenção às coisas a breve prazo, ao já e ainda não, ao agora presente, ao hoje. Esta categoria é fundamental em economia: a economia é “míope”, porque é fruto da género masculino que sabe olhar apenas para o fim do processo, ao ganho do final do ano, à conquista do mercado, e não consegue ter as características do género feminino do cuidado do gesto (processo), da atenção ao modo como se atinge o resultado, da relação que o caracteriza, etc...
Uma outra característica em que a mulher se distingue é a comunhão: criar comunhão, lutar pela comunhão (até à unidade, unidade da família por exemplo), e é uma categoria de que a economia tem necessidade absoluta. Os homens fazem grupos, associam-se por um objectivo, criam equipas, mas não criam comunhão, ou pelo menos muito menos do que as mulheres. Comunhão no feminino que significa trazer para a mesa de trabalho não só o objectivo, mas também a alma, os valores, a cultura, as motivações intrínsecas, a relação. A comunhão é uma categoria do presente, que deve ser renovada cada dia, guardada, alimentada, gerada, típica do agora e do feminino..

A gratuidade

 

Finalmente, está também frequentemente ligada à mulher a dimensão da gratuidade, motivo pelo qual, por exemplo, todos os trabalhos de ‘cuidar de outros’ são considerados estreitamente femininnos. Todas as vezes que um comportamento tem um valor em si, e não é apenas um meio para qualquer outra coisa, podemos falar de gratuidade. A categoria antiga que melhor diz o que é a gratuidade é ágape. Luigino Bruni recorda-nos que “a gratuidade não deve ser associada ao ‘gratis’, sendo por vezes mesmo o seu oposto, pois o acto gratuito não corresponde a um preço nulo, mas a uma ausência de preço ou, mais propriamente, a um preço infinito”.

A cultura da modernidade procurou relegar a gratuidade para a esfera privada, eliminando-a decididamente da esfera pública. Em especial, expulsou-a da esfera económica: à economia bastam os contratos, os incentivos, as boas regras e os interesses. A este erro (porque se trata mesmo de um erro, como de resto a própria teoria económica reconhece) está ligada a escolha política e económica de não considerar parte da economia o trabalho doméstico e as transformações dos bens que circulam no interior das paredes domésticas. Todos sabemos que o acto de consumo não se esgota no momento da aquisição: há necessidade de trabalho de transformação ou até de verdadeira “produção” (como lhe chama G. Becker) que faz com que tomates, amêijoas e um pacote de massa se transformem num almoço. Todo este trabalhpo de transformação e de produção está hoje fora da contabilidade nacional e do ‘produto interno bruto’ (PIB), também porque associado ao domínio da mulher, que é o reino da gratuidade, entendida erradamente como gratis. Para compreender como isto é verdade, basta ir ao restaurante para comer um prato de massa, tomate e amêijoas, e no fim pagar a conta: aquilo que é gratuito dentro das paredes domésticas, se for feito no cenário dum restaurante, descontando o valor da matéria prima, tem um custo e entra directamente no PIB.

Há depois uma segunda consideração. Se olharmos para as relações humanas não instrumentais ou de gratuidade da lógica económica standard, permanecendo no interno do modo convencional de conceber o mercado, somos obrigados a classificar comportamentos inspirados na gratuidade como desvios e anomalias, intromissões indevidas na esfera do mercado. Uma consequência de tal visão é associar necessariamente a sociabilidade genuina ao sacrifício. O assunto crucial de tal associação “standard” à sociabilidade é a existência duma proporcionalidade directa entre a genuinidade das motivações e a disponibilidade em sacrificar o interesse pessoal. Um exemplo disto é o que diz respeito à análise económica do mercado de trabalho em sectores caracterizados pela “vocação”, como os trabalhadores da saúde (médicos, enfermeiros, etc), os gestores não lucrativos ou os académicos. A tese comum no seio desta literatura é bem sintetizada pelo slogan “getting more by paying less” (obter mais pagando menos). A hipótese de fundo é que exista um sobconjunto de trabalhadores com “vocação” (o equivalente a motivações intrínsecas), que asseguram um melhor desempenho no trabalho. Não sendo a “qualidade vocacional” directamente observável (por causa das assimetrias infiormativas), a disponibilidade em substituir a recompensa material pela recompensa intrínseca “assinala” à organização os ‘bons’ candidatos, aqueles que trabalham por vocação (que asseguram um melhor desempenho). Assim, um mais baixo salário (relativamente ao do mercado), associado a benefícios específicos (mais apreciados por quem age por “vocação”), consegue separar (fazer auto-selecção) os trabalhadores motivados.

Mas, podemos perguntar-nos, estamos seguros de que a disponibilidade para o sacrifício seja mesmo o teste correcto para medir a motivação intrínseca ou a vocação? Interessante é a crítica de Julie Nelson que sustenta que a ideia de que toda a forma genuina de reciprocidade exige sacrifício serviu para encobrir a exploração da mulher no interior da família, o que hoje se traduz na tese dos salários inferiores nas ocupações que exigem motivação intrínseca.

Estou convencida que uma correcta avaliação da importância da gratuidade e das motivações intrínsecas permitiria sair deste impasse, e ao mesmo tempo fazer com que a gratuidade se tornasse um termo da economia. Uma tal correcta avaliação, aliás, faria com que olhássemos para todas as actividades da prestação de cuidados, e portanto também para a prestação dos cuidados em família como fontes de valor, e de valor acrescentado, tanto que já foi demonstrado como, inserindo as actividades das donas de casa que não entram no mercado no cálculo do PIB, em muitas nações este duplicaria. Não só: inserindo tais cálculos, ver-se-ia que o contributo das mulheres na economia seria mais de 50% superior ao dos homens. E depois, reconhecer o valor do trabalho que não passa pelo mercado teria ainda outras consequências: “em primeiro lugar, se as actividades de trabalho em família têm um valor reconhecido, poderiam ser confrontadas com as actividades de trabalho fora da família para avaliar os custos-oportunidades...; em segundo lugar, se as actividades de trabalho em família fossem consideradas um trabalho útil, ser-lhes-ia prestada a necessária atenção para torná-las eficientes e eficazes. Desapareceriam assim muitas das ‘manias’ inúteis herdadas de um passado que via a mulher dedicada à casa”.

Por outras palavras, uma certa visão cultural tem associado as actividades de prestação de cuidados à mulher, e qualquer forma de remuneração de tais actividades acaba por ser vista como uma transformação do amor em mercadoria: creio que o desafio da economia de hoje e de amanhã será a de imaginar que a gratuidade pode estar associada ao mercado, um justo salário associado ao contrato, e imaginar que uma enfermeira ou uma auxiliar podem e devem ser adequadamente pagas e, ao mesmo tempo, consideradas partners essenciais de um único projecto educativo. A amizade pode estar associada ao contrato, a gratuidade ao mercado, o eros ao ágape: a mulher, também pela sua vocação para a síntese e para a unidade, pode ajudar a sociedade na busca de uma nova síntese e de uma nova unidade. Para fazer isto, é a ideia de mercado que deve mudar.

Economia e ciência económica

O papel da mulher na esfera económica nunca será reconhecida plenamenbte na economia (economy), enquanto a ciência económica continuar a olhar para o mundo com o olhar míope da racionalidade instrumental, e até que um maior número de mulheres passe a ocupar-se da economia como ciência económica (economics). A economia (entendida como ciência), como todas as ciências humanas, vive de facto o problema da dupla hermenêutica: aquilo que se teoriza, uma vez que se teoriza sobre a pessoa, alterará de alguma maneira o modo de ser da pessoa. Uma série de experiências mostra, por exemplo, que o modo de comportar-se perante as escolhas varia conforme as pessoas que fizerem tais escolhas tenham ou não estudado economia.

A ciência económica, definida também como a ciência triste, foi-se construindo sobre os pilares do individualismo metodológico e da racionalidade instrumental. Nos últimos anos, têm sido muitas as tentativas para ‘complicar’ esta ciência, tomando em consideração a advertência de Hirschman que, no seu famoso artigo Against parsimony, punha de sobreaviso contra os perigos do reducionismo da ciência económica. Hoje já não é tabú em economia falar de bens relacionais, de reciprocidade, de racionalidade expressiva, de racionalidade do nós, etc. Nesta abertura para uma nova ciência económica, a mulher tem um papel importante, na passagem de uma ciência triste e da riqueza, para uma ciência da felicidade pública (porque condividida). Mas as mulheres devem ocupar estes espaços que hoje lhe são abertos, olhando para a economia como o âmbito de vida boa, como o lugar que, talvez mais que outros, tem necessidade de bens relacionais, de intuição e sobretudo de gratuidade.

As experiências em curso, como o microcrédito, cuja recurso fundamental é precisamente a mulher, fazem-nos entrever quais as potencialidades que se escondem por detrás do ‘empowerment’ das mulheres, precisamente nas culturas onde elas têm menos liberdade de expressão. O microcrédito está habitualmente ligado a experiências empresariais, e neste campo as mulheres estão a revelar-se uma verdadeira mina. E é precisamente o microcrédito que demosntra que este modelo de desenvolvimento em que as mulheres são protagonistas, não só traz consigo o melhoramento das condições sociais e económicas, mas é também um modelo inclusivo que acarreta bem-estar (‘welbeing’), para todos na paz.

Um outro sinal de esperança, sinal de que uma economia nova é possível, chega-nos precisamente de uma mulher genial: Chiara Lubich que deu vida à economia de comunhão. Um projecto que nasce do coração e da intuição de uma mulher que, durante uma viagem ao Brasil, fica impressionada pelas favelas que circundavam, em jeito de coroa de espinhos, a cidade de S. Paulo. E para fazer com que se realize o ideal das primeiras comunidades cristãs (“ninguém era necessitado entre eles”), inventa empresas novas, as quais devem produzir lucros para pô-los em comunhão: uma parte para o desenvolvimento da empresa, uma outra parte para a ajuda imediata aos pobres, e, finalmente, uma terceira parte para a formação de pessoas novas, porque (dizia) sem pessoas novas não pode haver uma economia nova.

E são precisamente estas experiências que dizem que as lentes da teoria económica se devem renovar, porque ela, com as suas categorias, não consegue lê-las.

Para concluir

Enfim, a gratuidade, cuja etimologia vem do grego ‘charis’, isto é, graça ou “aquilo que dá alegria”, tem muito a ver com carisma, dom. Com efeito, por um lado a gratuidade “acontece”, chega como um dom que nos torna capazes de gratuidade. Está aqui também a “não instrumentalidade” da gratuidade. De ‘charis’ provém também o termo carisma. Os carismas são sempre fontes de gratuidade, de vocações. A alegria é o grande sinal que revela a presença de gratuidade. Por isso, quero concluir esta minha breve intervenção, olhando para a mulher de Nazaré, Maria, arquétipo de todo e qualquer carisma, de toda a gratuidade. Também a economia espera que seja reconhecido ao princípio ou perfil mariano o seu lugar, para um mercado, uma finança e uma sociedade mais à medida da pessoa.

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Alessandra Smerilli

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